A TERCEIRA REVELAÇÃO SEGUNDO A DOUTRINA ESPÍRITA

QUALIDADES PRÓPRIAS ALLAN KARDEC

As Três Revelações:

Moisés, Cristo e o Espiritismo

1 – Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para dar-lhes cumprimento. Porque em verdade vos digo que o céu e a Terra não passarão, até que não se cumpra tudo quanto está na lei, até o último jota e o último ponto. (Mateus, V: 17- 18)

MOISÉS

2 – Há duas partes Distintas na lei mosaica: a de Deus, promulgada sobre o Monte Sinal, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida por Moisés. Uma é invariável, a outra é apropriada aos costumes e ao caráter do povo, e se modifica com o tempo.
A lei de Deus está formulada nos dez mandamentos seguintes:
I – Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás deuses estrangeiros diante de mim. Não farás para ti imagens de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima no céu, e do que há embaixo na terra, nem de coisa que haja nas águas debaixo da terra. Não adorarás nem lhes darás culto.
II – Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.
III – Lembra-te de santificar o dia de sábado.
IV – Honrarás a teu pai e a tua mãe, para teres uma dilatada vida sobre a terra que o Senhor teu Deus te há de dar.
V – Não matarás.
VI – Não cometerás adultério.
VII – Não furtarás.
VIII – Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
IX – Não desejarás a mulher do próximo.
X – Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem outra coisa alguma que lhe pertença.
Esta lei é de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, um caráter divino. Todas as demais são leis estabelecidas por Moisés, obrigado a manter pelo temor um povo naturalmente turbulento e indisciplinado, no qual tinha de combater abusos arraigados e preconceitos adquiridos durante a servidão do Egito. Para dar autoridade às leis, ele teve de lhes atribuir uma origem divina, como o fizeram todos os legisladores dos povos primitivos. A Autoridade do homem devia apoiar-se sobre a autoridade de Deus. Mas só a idéia de um Deus terrível podia impressionar homens ignorantes, em que o senso moral e o sentimento de uma estranha justiça estavam ainda pouco desenvolvidos. É evidente que aquele que havia estabelecido em seus mandamentos: “não matarás” e “não farás mal ao teu próximo”, não poderia contradizer-se, ao fazer do extermínio um dever. As leis mosaicas, propriamente ditas, tinham, portanto, um caráter essencialmente transitório.

CRISTO

3 – Jesus não veio destruir a lei, o que quer dizer: a lei de Deus. Ele veio cumpri-la, ou seja: desenvolvê-la, dar-lhe o seu verdadeiro sentido e apropriá-la ao grau de adiantamento dos homens. Eis porque encontramos nessa lei o princípio dos deveres para com Deus e para com o próximo, que constitui a base de sua doutrina. Quanto às leis de Moisés propriamente ditas, ele, pelo contrário, as modificou profundamente, no fundo e na forma. Combateu constantemente o abuso das práticas exteriores e as falsas interpretações, e não podia fazê-las passar por uma reforma mais radical do que as reduzindo a estas palavras: “Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”, e ao acrescentar: “Esta é toda a lei e os profetas”.
Por estas palavras: “O céu e a terra não passarão, enquanto não se cumprir até o último jota”, Jesus quis dizer que era necessário que a lei de Deus fosse cumprida, ou seja, que fosse praticada sobre toda a terra, em toda a sua pureza, com todos os seus desenvolvimentos e todas as suas conseqüências. Pois de que serviria estabelecer essa lei, se ela tivesse de ficar como privilégio de alguns homens ou mesmo de um só povo? Todos os homens, sendo filhos de Deus, são, sem distinções, objetos da mesma solicitude.
4 – Mas o papel de Jesus não foi simplesmente o de um legislador moralista, sem outra autoridade que a sua palavra. Ele veio cumprir as profecias que haviam anunciado o seu advento. Sua autoridade decorria da natureza excepcional do seu Espírito e da natureza divina da sua missão. Ele veio ensinar aos homens que a verdadeira vida não está na Terra, mas no Reino dos Céus, ensinar-lhes o caminho que os conduz até lá, os meios de se reconciliarem com Deus, e os advertir sobre a marcha das coisas futuras, para o cumprimento dos destinos humanos. Não obstante, ele não disse tudo, e sobre muitos pontos limitou-se a lançar o germe de verdades que ele mesmo declarou não poderem ser então compreendidas. Falou de tudo, mas em termos mais ou menos claros, de maneira que, para entender o sentido oculto de certas palavras, era preciso que novas idéias e novos conhecimentos viessem dar-nos a chave. Essas idéias não podiam surgir antes de um certo grau de amadurecimento do espírito humano. A ciência devia contribuir poderosamente para o aparecimento e o desenvolvimento dessas idéias. Era preciso, pois, dar tempo à ciência para progredir.

O ESPIRITISMO

5 – O Espiritismo é a nova ciência que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e suas relações com o mundo material. Ele nos mostra esse mundo, não mais como sobrenatural, mas, pelo contrário, como uma das forças vivas e incessantemente atuantes da natureza, como a fonte de uma infinidade de fenômenos até então incompreendidos, e por essa razão rejeitados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo se refere em muitas circunstâncias, e é por isso que muitas coisas que ele disse ficaram ininteligíveis ou foram falsamente interpretadas. O Espiritismo é a chave que nos ajuda a tudo explicar com facilidade.
6 – A lei do Antigo Testamento está personificada em Moisés, a do Novo Testamento, no Cristo. O Espiritismo é a terceira revelação da lei de Deus. Mas não está personificado em ninguém, porque ele é o produto do ensinamento dado, não por um homem, mas pelos Espíritos, que são as vozes do céu, em todas as partes da Terra e por inumerável multidão de intermediários. Trata-se, de qualquer maneira, de uns seres coletivos, compreendendo o conjunto dos seres do mundo espiritual, cada qual trazendo aos homens o tributo de suas luzes, para fazê-los conhecer esse mundo e a sorte que nele os espera.
7 – Da mesma maneira que disse o Cristo: “Eu não venho destruir a lei, mas dar-lhe cumprimento”. Também diz o Espiritismo: “Eu não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe cumprimento”. Ele nada ensina contrário ao ensinamento do Cristo, mas o desenvolve, completa e explica, em termos claros para todos, o que foi dito sob forma alegórica. Ele vem cumprir, na época predita, o que o Cristo anunciou, e preparar o cumprimento das coisas futuras. Ele é, portanto, obra do Cristo, que o preside, assim como preside ao que igualmente anunciou: a regeneração que se opera e que prepara o Reino de Deus sobre a Terra.

O Evangelho Segundo o Espiritismo
por ALLAN KARDEC – tradução de José Herculano Pires

ESPIRITISMO

 

A TERCEIRA REVELAÇÃO   

 

     O Espiritismo é a última revelação divina recebida pelos homens, de acordo com a promessa de Jesus no Evangelho de João: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco.” (14:16).
     Sua missão é guiar os homens à Verdade, restabelecendo o ensino do Cristo em sua pureza primitiva e abrindo novos horizontes à compreensão humana da vida: Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a Verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar.” (16:12, 13 e 14).
     Com Moisés, os homens receberam do Alto a I Revelação da realidade espiritual da vida. Essa revelação, que foi reunida pelos hebreus na grande codificação da Bíblia, sobrepunha-se a todas as formas religiosas do tempo, e conduziu o povo hebraico à concepção do Deus Único. Mas na própria Bíblia encontramos o anúncio da II Revelação, do advento do Messias, que se cumpriu com a vida de Jesus, oferecendo ao mundo a mais elevada forma de religião até então possível. E foi o próprio Messias quem anunciou, como vimos no Evangelho de João, a III Revelação, destinada a restabelecer os seus ensinos, que seriam deturpados pelos homens, e a ampliação de acordo com as novas necessidades da evolução terrena.
     A I e a II Revelações foram pessoais e locais, transmitidas por Moisés e Jesus a um determinado povo: o hebreu, incumbido de transmiti-las aos demais povos. A III Revelação não foi pessoal nem local, mas espiritual e universal. Os espíritos a deram em todo o mundo, através de suas comunicações, e Allan Kardec a codificou, como os hebreus codificaram a Bíblia e como os cristãos codificaram o Evangelho. Os hebreus reuniram os vários livros escritos sobre a I Revelação, e deles fizeram a Torah, ou a Bíblia, que hoje conhecemos. Os cristãos tiveram de reunir os vários livros escritos sobre a II Revelação, ou seja, os relatos dos quatros evangelistas, as epístolas e o Apocalipse, e com formar o Evangelho ou Novo Testamento. Os espíritas, pelas mãos de Kardec, o missionário, reuniram as comunicações mais esclarecedoras dos Espíritos do Senhor, que constituíam a Falange Luminosa do Espírito da Verdade, e com elas formaram a Codificação do Espiritismo.
     Assim como a I Revelação foi rejeitada por muitos hebreus, tendo Moisés de agir com energia para impô-la ao seu povo, e assim como a II Revelação foi rejeitada por quase todo o povo hebreu, a ponto de Paulo precisar levá-la aos gentios para que ela se difundisse no mundo, assim também a III Revelação foi rejeitada por judeus e cristãos, sendo aceita apenas por uma minoria. E assim como as igrejas judaicas da época chamaram Jesus de embusteiro e de instrumento do Diabo, levando-o à condenação e ao suplício, assim as igrejas cristãs de hoje chamam Kardec de embusteiro e o Espiritismo de instrumento do Diabo, tentando aniquilá-lo. Mas assim como as duas primeiras revelações triunfaram, a terceira também triunfará. Porque essa é a Vontade do Pai, que está nos Céus.
(J. Herculano Pires – Obra: O Infinito e o Finito)

O ESPIRITISMO OBRIGA          

     O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral. Então os que se dizem seus adeptos não podem, sem cometer uma grave inconsequência, subtrair-se às obrigações que impõe.    
     Essas obrigações são de duas sortes.
     A primeira concerne o indivíduo que, ajudado pelas claridades intelectuais, que a doutrina espalha, pode melhor compreender o valor de cada um de seus atos, melhor sondar todos os retalhos de sua consciência, melhor apreciar a infinita bondade de Deus, que não quer a morte do pecador mas que se converta e viva e, para lhe deixar a possibilidade de erguer-se de suas quedas, lhe deu a longa série de existências sucessivas, a cada uma das quais, levando o peso de suas faltas passadas, pode adquirir novos conhecimentos e novas forças, fazendo-o evitar o mal e praticar o que é conforme à justiça, à caridade. Que dizer daquele que, assim esclarecido quanto aos seus deveres para com Deus, para com os irmãos, fica orgulhoso, cúpido, egoísta? Não parece que a luz o tenha esquecido, porque não estava preparado para a receber? Desde então marcha nas trevas, posto esteja em meio à luz. Só é Espírita de nome. A caridade fraterna dos que veem realmente deve esforçar-se por curá-lo dessa cegueira intelectual. Mas para muitos dos que lhe parecem, será preciso a luz que o túmulo traz, porque seu coração está muito ligado aos prazeres materiais e seu espírito não está maduro para receber a verdade. Numa nova encarnação compreenderão que os planetas inferiores, como a Terra, não passam de uma espécie de escola mútua, onde a alma começa a desenvolver suas faculdades, suas aptidões, para em seguida as aplicar ao estudo dos grandes princípios da ordem, da justiça, do amor e da harmonia, que regem as relações das almas entre si, e as funções que desempenham na direção do Universo. Eles sentirão que, chamada a uma tão alta dignidade, qual a de se tornar mensageira do Altíssimo, a alma humana não deve aviltar-se, degradar-se ao contato dos prazeres imundos da volúpia; das ignóbeis tentações da avareza, que subtrai  a alguns filhos de Deus o gozo dos bens que deu a todos; compreenderão que o egoísmo, nascido do orgulho, cega a alma e a faz violar os direitos da justiça, da humanidade, desde que gera todos os males que fazem da terra um lugar de dores e de expiações. Instruídos pelas duras lições da adversidade, seu espírito será amadurecido pela reflexão, e seu coração, depois de ter sido ralado pela dor, tornar-se-á bom e caridoso. É assim que o que vos parece um mal, por vezes é necessário para reconduzir os endurecidos. Esses pobres retardatários, regenerados pelo sofrimento, esclarecidos por esta luz interior, que se pode chamar o batismo do Espírito, velarão com cuidado sobre si mesma, isto é, sobre os movimentos do coração e o emprego de suas faculdades. Compreenderão que não são apenas obrigados a eles próprios se melhorarem, cálculo egoísta que impede atingir o objetivo visado por Deus, mas que a segunda ordem de obrigação do Espírita, decorrendo necessariamente da primeira e a completando, é a do exemplo, que é o melhor dos meios de propagação e de renovação.
     Com efeito, aquele que está convencido da excelência dos princípios que lhe são ensinados, e devem, se a eles conforme a sua conduta, lhe proporcionar uma felicidade duradoura, não pode, se estiver verdadeiramente animado desta caridade fraterna, que está na essência mesma do Espiritismo, senão desejar que sejam compreendidos por todos os homens. Daí, a obrigação moral de conformar sua conduta com a sua crença e ser um exemplo vivo, um modelo, como o Cristo o foi para a humanidade.
     Vós, fracas centelhas partidas do eterno foco do amor divino, certamente não podeis pretender uma tão vasta radiação quando a do Verbo de Deus encarnado na Terra, mas cada um, na vossa esfera de ação, podeis espalhar os benefícios do bom exemplo. Podeis fazer amar a virtude, cercando-a do encanto dessa benevolência constante, que atrai, cativa e mostra, enfim, que a prática do bem é coisa fácil, faz a felicidade íntima da consciência que se colocou sob sua lei, pois ela é a realização da vontade divina, que nos fez dizer por seu Cristo: Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.
     Ora, o Espiritismo não é senão a aplicação verdadeira dos princípios de moral ensinada por Jesus, porque não é senão com o objetivo de a fazer por todos compreendida, a fim que por ela todos progridam mais rapidamente, que Deus permite esta universal manifestação do Espírito, vindo vos explicar o que vos parecia obscuro e vos ensinar toda a verdade. Vem, como o cristianismo bem compreendido, mostrar ao homem a absoluta necessidade de sua renovação interior pelas consequências mesmas que resultam de cada um de seus atos, de cada um de seus pensamentos. Porque nenhuma emanação fluídica, boa ou má, escapa do coração ou do cérebro do homem sem deixar um sinal em qualquer parte. O mundo invisível que vos cerca á para vós esse Livro de vida, onde tudo se inscreve com uma incrível fidelidade, e a Balança da Justiça divina não é senão uma figura, exprimindo que cada um dos vossos atos, cada um dos vossos sentimentos é, de certo modo, o peso que carrega a vossa alma e a impede de se elevar, ou que traz o equilíbrio entre o bem e o mal.
     Feliz aquele cujos sentimentos partem de um coração puro: espalha em seu redor como uma suave atmosfera, que faz amar a virtude e atrai os bons Espíritos; seu poder de radiação é tanto maior quanto mais humilde for, isto é, mais desprendido das influências materiais que atraem a alma e a impedem de progredir.
     As obrigações impostas pelo Espiritismo são, pois, de uma natureza essencialmente moral; são uma consequência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam os pusilânimes e, por isto, ele é rejeitado por tão grande número. Outros tratam de conciliar a reforma que sua razão lhes demonstra ser uma necessidade, com as exigências da sociedade atual. Daí uma mistura heterogênea, uma falta de unidade, que faz da época atual um estado transitório. É tão difícil à vossa pobre natureza corporal se despojar de suas imperfeições para revestir o homem novo, isto é, o homem que vive segundo os princípios de justiça e de harmonia queridos por Deus. Com esforços perseverantes, nada obstante, lá chegareis, porque as obrigações impostas à consciência, quando suficientemente esclarecida, têm mais força que jamais terão as leis humanas, baseadas no constrangimento de um obscurantismo religioso que não suporta o exame. Mas se, graças às luzes do alto, fordes mais instruídos e compreenderdes mais, também deveis ser mais tolerantes e não empregar, como meio de propagação, senão o raciocínio, porque toda crença sincera é respeitável. Se vossa vida, for um belo modelo em que cada um possa achar bons exemplos e sólidas virtudes, onde a dignidade se alia a uma graciosa amenidade, rejubilai-vos, porque tereis, em parte, compreendido a que obriga o Espiritismo. (Mensagem do Espírito de Luís de França – Revista Espírita de 1866) 

 

LUZ  NOVA
     O Espiritismo está chamado a esclarecer o mundo, mas necessita de um certo tempo para progredir. Existiu desde a Criação, mas só era reconhecido por algumas pessoas, porque, em geral, a massa pouco se ocupa em meditar sobre questões espíritas. Hoje, com o auxílio desta pura doutrina, haverá uma luz nova. Deus, que não quer deixar a criatura na ignorância, permite que os Espíritos mais elevados nos venham em auxílio, para contrabalançarem o Espírito das trevas, que tende a envolver o mundo. O orgulho humano obscurece a razão e a faz cometer muitos erros. São necessários Espíritos simples e dóceis para comunicarem a luz e atenuarem todos os males. Coragem! Persisti neste obra, que é agradável a Deus, porque ela é útil para a sua maior glória, e dela resultarão grandes bens para a salvação das almas. (Mensagem do Espírito Francisco de Sales – Revista Espírita de 1860).

A DÚVIDA        

     Enquanto na Terra, temos uma venda nos olhos que só a morte arranca.
     Essa venda, que é a dúvida, obriga-nos a ir de encontro à verdade, como se fôssemos cegos.
     Repara. Em todos os atos da vida do homem se encontra o efeito deletério da dúvida.
     Em todos os momentos em que ele se veja colocado ante um problema novo, ante uma afirmação nova, ante uma nova conquista, a sua primeira e a mais intensa impressão é a dúvida.
     A dúvida é a filha da inveja e do despeito. Procura bem a origem do mais poderoso obstáculo ao progresso, e, quase sempre, encontrarás como progenitores incontestados de tão mesquinho sentimento aqueles dois parasitas do coração humano.
     Não se perdoa nunca a quem pelo esforço potencial e criador do seu gênio, pela adaptação das suas faculdades assimiladoras, ou pelo providencial propulsor que a ignorância denomina acaso, atire a sua barra mais além que a maioria suprema dos seus semelhantes ignaros.
     Aparece alguém que afirma poder avançar-se mais um passo na infinita senda da perfeição e do saber?
     Duvida-se.
     Por que se duvida?
     Porque toda a gente se sente invejosa e despeitada de que não haja sido esse alguém.
    Consulta a sua ação, a sua inteligência, todas as suas faculdades produtoras e inventivas, assimilativas, harmonizadoras, e num exame miraculosamente rápido, acha o vazio da sua aptidão a inanidade da sua competência, e, besta invejosa, arremessa logo o único sentimento que a vacuidade do seu cérebro ou a pequenez do seu coração pode manifestar em abundância – a dúvida.
     Procure cada um bem dentro do seu íntimo, no mais escondido recesso da sua alma, e reconhecerá quanta verdade existe nesta observação.
     Não duvidamos porque tenhamos razões poderosas ou ponderosas para o podermos fazer; mas porque olhando, analisando a nossa própria individualidade, nos reconhecemos inaptos e incapazes de ver ou de fazer o que outrem nos diz que viu ou que fez; ou, quando por vaidade ou pretensão, ou mesmo justiça, nos supuséssemos capazes de o fazer, esse outrem se antecipou a nós na sua execução, ou na sua divulgação.
     No primeiro caso é a inveja; no segundo o despeito; e consequência lógica de ambos: – dúvida.
     Não conheci eu bem, enquanto aí estive, a pedra angular sobre que assenta a misteriosa máquina que obstrui secularmente a marcha gradual e evolucionista do progresso; porque se a tivesse conhecido, se não fosse só o descobrimento da morte que me levou a essa perfeição analítica e inteirada da claudicação do eu humano, teria escalpelado e posto a nu a chaga corrosiva e purulenta que mina, apodrece e deprecia a mais complicada e maravilhosa obra da Criação.
     A minha obra, filha da observação, foi a de quem procurou ser justo; mas teria sido a de um santo, se eu não tivesse, como a humanidade toda, a venda do mistério a cegar-me a alma e a desvirtuar-me a ação…
(Mensagem do Espírito de Émile Zola – 28/11/1906 – Obra:
Do País da Luz – Médium: Fernando Lacerda).
PONDEROSAS = dignas de atenção, convincentes, importantes.

 

MEDICINA E SENTIMENTOS   

 

     A medicina verdadeira não pode separar-se dos sentimentos elevados, que têm a capacidade de afigurá-la como esperança, fé, e alegria para todos os desesperados. E esses sentimentos dos representantes da ciência têm um veículo por excelência grandioso: a palavra. O enfermo, nas circunstâncias em que se encontra, é todo ouvidos. Está, por assim dizer, com as sensibilidades afloradas, principalmente em relação ao clínico. Eis aí a hora exata de uma palavra certa, de um verbo benfeitor, para que os medicamentos possam desempenhar o seu papel de restabelecimento do equilíbrio orgânico, porque a palavra já abriu o caminho no mundo psíquico, no fabuloso mundo da mente.
     Não é de bom alvitre que o terapeuta cerre seus lábios perante o doente. Este precisa ouvi-lo, e a sua voz será um comando de grandes poderes no mundo endócrino, no sistema nervoso, assim como no metabolismo celular, qual a voz do comandante para uma divisão militar.
     Se queres curar, aliviar e consolar, não esqueças a boca antes de tudo: começa por ela, depois continua pela sequência do que aprendeste nos bancos da universidade e na experiência própria. A medicina é um apostolado, é um ministério divino, mas procura envolver-te em sentimentos de fraternidade e de amor para com o próximo. Trata-o como se ele fosse tu mesmo estirado em um leito, e vai para a frente, que mãos invisíveis te ajudarão na sagrada tarefa de curar. Alguém que te acompanha no mundo espiritual fará o que porventura te faltar na ciência de restabelecer os outros.
     Falar com decência é preparar-se para ouvir com carinho. Busquemos, pois, policiar o nosso intercâmbio com quem quer que seja, sem, todavia, anunciar este nosso dever, para que a nossa reforma não fique desvalorizada pela vaidade.
     Se gostas imensamente de coisas científicas, na verdade te dizemos que a palavra, a sua estrutura, o seu todo, é uma ciência. Para educá-la, é necessário conhecer, mas conhecer muito! Somente o sábio, que se santificou por dentro, sabe dominá-la em toda a sua gama de sons e vibrações, de ondas e de magnetismo superior. Porém, não deves colocar-te muito distante desse domador da voz, pois podes ser um deles se começares com bom ânimo, se não esmoreceres com os primeiros obstáculos, que certamente aparecerão para te testar como aluno da verdade. Quem não está disposto a lutar, como poderá vencer? Em muitos casos, ao iniciares a reforma da palavra em tua boca, as pedras cairão em teu caminho. A tua própria natureza íntima, acostumada aos velhos e decadentes assuntos inferiores, criarão barreiras, para que venha em ti o esmorecimento. Mas, se fores daquele tipo que quando cai torna a levantar-se e seguir viagem, serás beneficiado por Deus e Cristo, através dos teus próprios esforços.
     Há pessoas que gostam muito de ouvir quem fala com decência, quem já educou a voz no certame do amor, quem pronuncia com o perfume da alegria elevada; não obstante, esquece-se de seguir o exemplo, fazendo o mesmo para o seu próprio bem. Vamos analisar o que fala o apóstolo Tiago sobre isso: “Tornai-vos, pois, praticante da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos”.
     Poderás ser um médico da palavra, sem com isso ostentar um diploma acadêmico. Depende do domínio que já alcançaste, do amor armazenado no teu coração e da facilidade com que a alegria jorra dos teus lábios, harmonizando os que te ouvem, doando saúde e paz às criaturas. Podes ser um cientista, se os sons da tua boca representarem uma orquestra divina, se a tua fala construir por onde transitares nesse universo sem limites. Mas, antes dessa operação maior, examina o que vais falar, e se vierem à mente coisas desagradáveis, corta-as, movendo a tua língua somente com a pureza que procede de Deus, nosso Pai. Comecemos, que muitos já começaram e seguiram, estando felizes com a experiência de falar bem.
(Espírito de  Miramez – Obra: Horizontes da Fala – Médium: João Nunes Maia).  

O AMOR É A LEI DO ESPIRITISMO

 

     Glória a Deus, soberano senhor de todas as coisas!
     Senhor, nós vos pedimos espalheis vossa santa bênção sobre esta Assembleia.
     Nós vos glorificamos e vos agradecemos porque vos aprouve esclarecer nosso caminho pela divina luz do Espiritismo.
    Graças a esta luz, a dúvida e a incredulidade desapareceram do nosso espírito e também desaparecerão do mundo; a vida futura é uma realidade e marchamos sem incertezas para o futuro que nos está reservado.
     Sabemos de onde vimos e para onde vamos, e porque estamos na Terra.
     Conhecemos a causa de nossas misérias e compreendemos que tudo é sabedoria e justiça em vossas obras.
     Sabemos que a morte do corpo não interrompe a vida do espírito, mas que lhe abre a verdadeira vida; que não rompe nenhuma afeição sincera; que os que nos são caros não estão perdidos para nós e que os encontraremos no mundo dos Espíritos. Sabemos que enquanto esperamos, eles estão junto de nós; que nos veem e nos ouvem e podem continuar suas relações conosco.
     Ajudai-nos, Senhor, a espalhar entre os nossos irmãos da Terra, que ainda estão na ignorância, os benefícios desta santa crença, porque ela acalma todas as dores, consola os aflitos, dá-lhes coragem, resignação e esperança nas maiores amarguras da vida.
     Dignai-vos estender vossa misericórdia sobre os nossos irmãos mortos e sobre todos os Espíritos que se recomendam às nossas preces, seja qual for a crença que tenham tido na Terra.
     Fazei que o nosso pensamento benevolente leve alívio, consolação e esperança aos que sofrem.
     A seguir o Presidente dirige a seguinte alocução aos Espíritos:
     Caros Espíritos de nossos antigos colegas Jobard, Sanson, Costeau, Hobach e Poudra:
     Convidando-vos a esta reunião comemorativa, nosso objetivo não é apenas vos dar uma prova de nossa lembrança que, bem sabeis, é sempre cara à nossa memória; vimos, sobretudo, felicitar-vos pela posição que ocupais no mundo dos Espíritos e vos agradecer as excelentes instruções que, de vez em quando, nos vindes dar desde a vossa partida.
     A Sociedade se rejubila por vos saber felizes, ela se honra por vos haver contado entre os seus membros, e de vos contar agora entre os seus conselheiros do mundo invisível.
     Apreciamos a sabedoria de vossas comunicações e seremos sempre felizes todas as vezes que tiverdes a bondade de vir participar de nossos trabalhos.
     A esse testemunho de gratidão associamos todos os bons Espíritos que, habitual ou eventualmente, vêm trazer-nos o tributo de suas luzes: João Evangelista, Erasto, Lamennais, Georges, François-Nicolas-Madeleine, Santo Agostinho, Sonnet, Laluze, Viannet – cura d’Ars – Jean Raynaud, Delphine de Girardin, Mesmer e os que apenas tomam qualificação de Espírito.
     Devemos um particular tributo de reconhecimento ao nosso guia e presidente espiritual, que na Terra foi São Luís. Nós lhe agradecemos a bondade de ter tomado a nossa sociedade sob seu patrocínio e pelas provas evidentes de proteção, que nos tem dado. Nós lhe rogamos, igualmente, que nos assista nesta circunstância.
     Nosso pensamento se estende a todos os adeptos e apóstolos da nossa doutrina, que deixaram a Terra e, nomeadamente aos que nos são pessoalmente conhecidos, a saber: N. N…
     A todos aqueles a quem Deus permite venham ouvir-nos, dizemos:
     Caros irmãos em crença, que nos precedestes no mundo dos Espíritos, nós nos unimos em pensamento para vos dar um testemunho de simpatia e chamar sobre vós as bênçãos do Todo-Poderoso.
     Nós lhe agradecemos a graça que ele vos fez de serdes esclarecidos pela luz da verdade antes de deixardes a Terra, porque esta luz vos guiou à entrada na vida espiritual; a fé e a confiança em Deus, que ela vos deu, vos preservou da perturbação e das angústias que seguem a separação daqueles a quem afligem a dúvida e a incredulidade.
     Ela vos deu coragem e a resignação nas provas da vida terrena; mostrou o objetivo e a necessidade do bem, as consequências inevitáveis do mal e agora colheis os seus frutos.
     Deixastes a Terra sem pesar, sabendo que, íeis encontrar bens infinitamente mais preciosos que os que aqui deixáveis; vós a deixastes com a firme certeza de reencontrar os objetos de vossa afeição e de poder voltar em Espírito, para sustentar e consolar os que deixáveis. Enfim, estais no mundo dos Espíritos, como num país que vos era conhecido por antecipação.
     Estamos muito felizes por ter visto nossas crenças confirmadas por todos aqueles dentre vós que vieram comunicar-se; nenhum veio dizer que tinha sido iludido em suas esperanças e que tínhamos ilusão sobre o futuro. Ao contrário, todos disseram que o mundo invisível tinha esplendores indescritíveis e que suas esperanças tinham sido ultrapassadas.
     Agora, a vós, que gozais da felicidade de ter tido fé, e que recebeis a recompensa de vossa submissão à lei de Deus, de vir em auxílio dos vossos irmãos da Terra que ainda se encontram nas trevas. Sede os missionários do Espírito de verdade, para o progresso da humanidade e para o cumprimento dos desígnios do Altíssimo.
     Nosso pensamento não para em nossos irmãos em Espiritismo: todos os homens são irmãos, seja qual for a sua crença.
     Se fôssemos exclusivos, nem seríamos Espíritas, nem cristãos. É por isto que envolvemos em nossas preces, em nossas exortações e em nossas felicitações, conforme o estado em que se achem, todos os Espíritos aos quais nossa assistência pode ser útil, tenham ou não partilhado, em vida, de nossas crenças.
     O conhecimento do Espiritismo não é indispensável à felicidade futura, porque não tem o privilégio de fazer eleitos. É um meio de chegar mais facilmente e mais seguramente ao objetivo, pela fé racionada, que ele dá, e à caridade, que inspira; ele ilumina o caminho, e o homem, não mais seguindo às cegas, marcha com mais segurança; pois ele melhor compreende o bem e o mal; dá mais força para praticar um e evitar o outro. Para ser agradável a Deus, basta observar suas leis, isto é, praticar a caridade, que as resume a todas. Ora, a caridade pode ser praticada por todo o mundo. Despojar-se de todos os vícios e de todas as inclinações contrárias à caridade é, pois, condição essencial da salvação. (Allan Kardec).
     Em seguida os médiuns se puseram à disposição dos Espíritos que quiseram manifestar-se, sem nenhuma evocação particular; dentre os vários que se manifestaram, citamos a seguinte do Espírito João Evangelista:
     “Meus filhos, uma estreita comunhão liga os vivos aos mortos. A morte continua a obra esboçada e não rompe os laços do coração. Esta certeza enriquece o tesouro de amor derramado na criação.
     Os progressos humanos obtidos a preço de sacrifícios dolorosos e de hecatombes sangrentas aproximam o homem do Verbo divino e o fazem soletrar a palavra sagrada que, caída dos lábios de Jesus, reanimou a humanidade desfalecente. O amor é a lei do Espiritismo; ele dilata o coração e faz amar ativamente aqueles que desaparecem na vaga penumbra do túmulo.
     O Espiritismo não é um som vão, caído dos lábios mortais e levados por um sopro: é a fé forte e severa, proclamada por Moisés no Sinai, e afirmada pelos mártires, ébrios de esperança, a lei discutida pelos filósofos inquietos e que, enfim, os Espíritos vêm proclamar.
     Espíritas! o grande nome de Jesus deve flutuar como uma bandeira acima de vossos ensinos. Antes que fôsseis, o Salvador levava a revelação em seu seio, e sua palavra, medida prudentemente, indicava cada uma das etapas, que hoje percorreis. Os mistérios cairão ao sopro profético que vos abre as inteligências, como outrora as mura-lhas de Jericó.
     Uni-vos pela intenção, como o fazeis nesta reunião abençoada. A tépida eletricidade desprendida do coração atravessa a distância que nos separa, e dissipa os vapores da dúvida, da personalidade, da indiferença, que muitas vezes obscurece a faculdade espiritual.
     Amai e orai por vossas obras”. (Revista Espírita de 1864)  

doutrina espírita

 IMIGRAÇÃO DE ESPÍRITOS  

 

     Falar-vos-ei esta noite das imigrações de Espíritos adiantados, que vêm encarnar-se em vossa Terra. Já novos mensageiros tomaram o bastão de peregrino; já se espalham aos milhares em vosso globo; por toda a parte estão dispostos pelos Espíritos que dirigem o movimento de transformação por grupos, por séries. Já a Terra treme ao sentir em seu seio aqueles que ela outrora viu passar através de sua humanidade nascente. Ela se alegra de os rever, porque pressente que vêm para a conduzir à perfeição, tornando-se guias dos Espíritos ordinários, que necessitam ser encorajados por bons exemplos.
     Sim: grandes mensageiros estão entre vós. São os que se tornarão os sustentáculos da geração futura. À medida que o Espiritismo vai crescer e desenvolver-se, os Espíritos de uma ordem cada vez mais elevada virão sustentar a obra, em razão das necessidades da causa. Por toda a parte Deus espalhou esteios para a doutrina: eles surgirão no tempo e no lugar. Assim, sabei esperar com firmeza e confiança; tudo o que foi predito acontecerá, como diz o santo livro, até um iota1.
     Se a transição atual, como acaba de dizer o mestre, levantou as paixões e fez surgir a escória dos Espíritos encarnados e desencarnados, ela também despertou o desejo ardente, numa porção de Espíritos de uma posição superior nos mundos dos turbilhões solares, de virem novamente servir aos desígnios de Deus para esse grande acontecimento.
     Eis por que eu dizia há pouco que a imigração de Espíritos superiores se operava em vossa Terra para atirar a marcha ascendente de vossa humanidade. Assim, redobrai de coragem, de zelo, de fervor pela causa sagrada. Sabei-o: nada deterá a marcha progressiva do Espiritismo, pois poderosos protetores continuarão vossa obra.
(Mensagem do Espírito de Mesmer – Revista Espírita de 1865).

COMBATE ÀS INIBIÇÕES

 

     Todos precisamos combater inibições aqui ou ali, nesse ou naquele sentido, para produzir espiritualmente. Opomos quase sempre demasiada resistência íntima às realizações das grandes causas.
     Superstição, aversão a tudo que é novo, preguiça, medo, timidez, amor próprio e desorganização agem no interior da criatura, freando-lhe a capacidade criativa.
     Se formos aguardar circunstâncias excepcionais em nosso espírito e fora dele, entre as pessoas e os fatos, a fim de plasmar aquilo que a consciência indica, jamais conseguiremos atingir os nossos objetivos.
     Indispensável subjugar indisposições e contratempos para não adiar indefinidamente o que deve ser feito agora.
     Lógico que urge examinar tudo o que diz respeito ao que estamos realizando para que a impulsividade não nos domine. Mas também para que não olvidemos que todas as obras duradouras nasceram provocando incompreensões naturais, superando obstáculos imprevisto, removendo as reações do tradicionalismo. Sobretudo, contrariando sonhos e prazeres, comodismos e temperamentos dos responsáveis que transpiram sangue, suor e pranto para que se lhes erigissem as bases.
     Polimorfa em sua atividade paralisante, a inibição possui mimetismo desastroso, infiltrando-se em todo ambiente, apresentando-se sob muitos aspectos, conforme os ensejos que a criatura lhe oferece.
     Veja em você os pontos frágeis por onde a inibição se manifesta. Observe que ela, agora, lhe sabota os pensamentos como sendo dificuldade de expressão. Mais tarde mina-lhe os atos mascarando-se por receio de enfrentar a realidade. Depois, parasita-lhe a saúde fazendo-se passar por desânimo ante a faina precisa.
     Consulte-se a todos os que lançaram algum dia ideias renovadoras ou criações respeitáveis, na esfera evolutiva dos homens, e encontraremos a biografia da inibição, qual monstro ameaçador, que eles, os pioneiros do progresso, se viram forçados a banir da convivência desde os primeiros passos da caminhada.
     Se você tem algo de bom em mente que deva ser edificado, comece a empresa, afastando de seu caminho semelhante embaraço.
     Carecemos de coragem até para enfrentar a nós mesmos. Liberte-se de tabus, desenvolva os próprios dons, desembarace-se. Tenha confiança no destino que você está construindo.
     Brilha no Evangelho este aviso promissor: “buscai e achareis”.
     Tudo aquilo que desejamos de intenção nobre, alcançaremos. Para isso, dispomos dos instrumentos em nós: vida, inteligência, discernimento e possibilidade de trabalhar. Não podemos esquecer, contudo, das peias da inibição por envoltório constringente. Nesse aspecto, convém recorrer à lição da semente que, de fato, germina, ganha espaço, cresce para o sol e cumpre o seu destino, mas primeiro precisa sair de si mesma.
(Espírito Kelvin Van Dine – Obra: Técnica de Viver – Médium: Waldo Vieira) 

O VERDADEIRO RECOLHIMENTO

 

     Se pudésseis ver o recolhimento dos Espíritos de todas as ordens, que assistem às vossas sessões, durante a leitura de vossas preces, não só ficaríeis tocados, mas ficaríeis envergonhados de ver que o vosso recolhimento, que apenas qualifico de silêncio, está muito longe de aproximar-se do dos Espíritos, um bom número dos quais vos são inferiores. O que chamais vos recolherdes durante a leitura de vossas belas preces, é observar um silêncio que ninguém perturba; mas se vossos lábios não se mexem, se vosso corpo está imóvel, vosso Espírito vaga e deixa de lado as sublimes palavras que deveríeis pronunciar do mais profundo do vosso coração, a elas vos assimilando pelo pensamento.
     Vossa matéria observa o silêncio; certo, dizer o contrário seria vos injuriar; mas o vosso Espírito tagarela não o observa e perturba, neste instante, por vossos pensamentos diversos, o recolhimento dos Espíritos que vos rodeiam. Ah! se os vísseis prosternados ante o Eterno, pedindo a realização de cada uma das palavras que ledes, vossa alma ficaria comovida e lamentando sua pouca atenção passada; faria uma volta sobre si mesma e pediria a Deus, de todo coração, a realização dessas mesmas palavras que apenas pronunciava com os lábios. Pediríeis aos Espíritos que vos tornásseis dóceis aos seus conselhos. E eu, Espírito que vos fala, após a leitura de vossas preces, e das palavras que acabo de repetir, poderia assinalar mais de um que daqui sairá muito pouco dócil aos conselhos que acabo de dar e com sentimentos muito pouco caridosos para com o próximo.
     Sem dúvida sou um pouco duro; mas creio não o ser para com aqueles que o merecem e cujos pensamentos mais secretos não podem ser escondidos aos Espíritos. Não me dirijo, pois, aos que aqui vêm pensando em qualquer outra coisa senão nas lições que aqui devem buscar e nos sentimentos que aqui devem trazer. Mas os que oram do fundo da alma orarão também, após a leitura de minha comunicação, por aqueles que vêm aqui e daqui partem sem haver orado.
     Seja como for, peço aos que tiveram a bondade de me escutar, que continuem a pôr em prática os ensinamentos e os conselhos dos Espíritos; a isto os convido no seu interesse, pois não sabem tudo quanto podem perder não o fazendo.
(Espírito de Courson – Revista Espírita de 1868).

A MISÉRIA HUMANA

 

     A miséria humana não está na incerteza dos acontecimentos que ora nos elevam, ora nos rebaixam. Está inteira no coração ávido e insaciável, que incessantemente aspira a receber, que se lamenta da secura de outrem e jamais se lembra da própria aridez. Essa desgraça de aspirar a mais alto que a si mesmo, essa desgraça de não poder satisfazer-se com as mais caras alegrias, essa desgraça, digo eu, constitui a miséria humana. Que importa o cérebro, que importam suas mais brilhantes faculdades, se elas são sempre ensombradas pelo desejo amargo e insaciável de algo que lhe escapa sem cessar; a sombra flutua junto ao corpo, a felicidade flutua junto à alma, para ela inatingível. Contudo, não vos deveis lamentar nem maldizer a sorte. Porque essa sombra, essa felicidade, fugidia e móvel como a onda, pelo ardor e pela angústia que deposita no coração, dá-nos a prova da divindade aprisionada na humanidade. Amai, pois, a dor e sua poesia vivificante, que faz vibrar vossos Espíritos pela lembrança da pátria eterna. O coração humano é um cálice cheio de lágrimas; mas vem a aurora, que beberá a água dos vossos corações; ela será para vós a vida que deslumbrará vossos olhos, cegos pela escuridão da prisão carnal. Coragem! cada dia é uma libertação. Marchai pelo caminho doloroso; marchai, acompanhando com o olhar a misteriosa estrela da esperança.
(Espírito Georges – Revista Espírita de 1860).  

obras jesus

A TRISTEZA E O PESAR

 

     É um erro ceder frequentemente à tristeza. Não vos enganeis: o pesar é o sentimento firme e honesto, que fere o homem atingido no coração ou nos interesses; mas a tristeza lassa não passa de manifestação física do sangue afrouxado ou precipitado em seu curso. A tristeza cobre com o seu nome muito egoísmo, muita fraqueza. Debilita o espírito que a ela se abandona. Ao contrário, o pesar é o pão dos fortes; este amargo alimento nutre as faculdades do espírito e diminui a parte animal. Não busqueis o martírio do corpo, mas sede ávidos pelo martírio da alma. Os homens compreendem que devem mover pernas e braços para manter a vida do corpo, e não compreendem que devem sofrer para exercitar as faculdades morais. A felicidade, ou apenas a alegria, são hóspedes tão passageiros da humanidade, que não podeis, sem ser por elas esmagados, suportar a sua presença, por mais ligeira que seja. Fostes feitos para sofrer e sonhar incessantemente com a felicidade, porque sois aves sem asas, pregadas ao solo, que olhais o céu e desejais o espaço.
(Mensagem do Espírito Georges – Revista Espírita de 1860).  

 

HIERARQUIA

 

     Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei: lei divina, pela qual Deus cria incessantemente e governa os mundos. O amor é a lei da atração para os seres vivos e organizados; a atração é a lei do amor para a matéria inorgânica.
     Não vos esqueçais nunca de que o Espírito, seja qual for o seu grau de adiantamento e a sua situação, seja numa reencarnação ou seja na erraticidade, está sempre colocado entre um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um inferior, perante o qual tem os mesmos deveres a cumprir.
     Sede pois caridosos, não somente desta caridade que vos leva a tirar do bolso o óbolo que dais friamente àquele que ousa vo-lo pedir: ide à procura das misérias ocultas.
     Sede indulgentes para com os erros dos vossos semelhantes. Em lugar de desprezar a ignorância e o vício, instruí-os e moralizai-os. Sede mansos e benevolentes para com tudo o que vos é inferior. Sede-o, mesmo perante os mais ínfimos seres da criação, e tereis obedecido à lei de Deus.
(Mensagem do Espírito de Vicente de Paulo). 

 

A HONESTIDADE RELATIVA 

 

     Hoje nos ocuparemos da moralidade dos que não a têm, isto é, da honestidade relativa, que se acha nos mais pervertidos corações. O ladrão não rouba o lenço do seu camarada, mesmo quando este tenha dois; o negociante não é careiro para o amigo; o traidor, apesar de tudo é fiel a alguém. Jamais um clarão divino está completamente ausente do coração humano; assim, deve ser conservado com cuidados infinitos, senão desenvolvido. O julgamento estreito e brutal dos homens impede, por sua severidade, muito mais as recuperações do que a prática das más ações. Desenvolvido, o Espiritismo deve ser e será a consolação e a esperança dos corações feridos pela justiça humana. Cheia de sublimes ensinamentos, a religião paira muito alto para os ignorantes. Ela não atinge, como devia, a espessa imaginação do iletrado, que quer ver para crer. Esclarecida pelos médiuns, a crença florescerá no coração ressequido talvez do próprio médium. Assim, é sobretudo ao povo que os verdadeiros espíritas devem dirigir-se, como outrora os apóstolos. Que espalhem a doutrina consoladora; como pioneiros, que se enterrem no pântano da ignorância e do vício, para desbastar, sanear, preparar o terreno das almas, a fim de que elas possam receber a bela cultura do Cristo.
(Mensagem do Espírito Georges – Revista Espírita de 1860)

 

O SABER DOS ESPÍRITOS

 

     No estudo do Espiritismo há um grave erro, que cada dia mais se propaga e que se torna quase o móvel que faz os outros virem a nós: é o de nos julgarem infalíveis nas respostas. Pensam que tudo devemos saber, tudo ver, tudo prever. Erro! grande erro! Certamente, nossa alma não mais estando encerrada num corpo material, como um pássaro numa gaiola, lança-se no espaço; os sentidos dessa alma tornam-se mais sutis, mais desenvolvidos; vemos e ouvimos melhor; mas não podemos saber tudo, estar em toda parte, porque não temos o dom da ubiquidade. Que diferença, pois, haveria entre nós e Deus, se nos fosse permitido conhecer o futuro e anunciá-lo pontualmente? Isto é impossível. Sabemos mais que os homens, certamente; por vezes podemos ler no pensamento e no coração dos que nos falam, mas aí para a nossa ciência espírita. Corrigi-vos, pois, da ideia de nos interrogar unicamente para saber o que se passa em tal ou qual parte do vosso globo, em relação a uma descoberta material, comercial, ou para serdes advertidos do que se passará amanhã, nos negócios políticos ou industriais. Nós vos informaremos sempre sobre o nosso estado, sobre nossa existência extracorpórea, sobre a bondade e a grandeza de Deus, enfim, sobre tudo quanto possa servir à vossa instrução e à vossa felicidade presente e futura, mas não nos pergunteis o que não podemos nem devemos dizer.
(Comunicação do Espírito Channing – Revista Espírita de 1860). 

 

O FUTURO

 

     O Espiritismo é a ciência de toda a luz. Feliz da sociedade que o puser em prática! Somente então a idade de ouro, ou melhor, a era do pensamento celeste reinará entre vós. E não penseis que por isto tereis menos satisfações terrenas. Muito ao contrário, tudo será felicidade para vós, porque nesse tempo a luz vos fará ver a verdade sob um aspecto mais agradável. O que os homens ensinarão não será mais essa ciência capciosa, que vos faz ver, sob a enganadora máscara do bem geral, ou de um bem futuro, no qual, muitas vezes, o próprio mestre não  tem nenhuma confiança, a mentira e a cupidez, a vontade de tudo ter, em proveito de uma seita e, por vezes até, em proveito de um só. Certamente os homens não serão perfeitos; mas então o falso será tão restrito, os maus terão tão pouca influência que serão felizes na sua menoridade. Nesses tempos os homens compreenderão o trabalho e todos chegarão à riqueza, porque não desejarão o supérfluo senão para fazer grandes obras em proveito de todos. O amor, esta palavra tão divina, não mais terá essa acepção impura que lhe emprestais; todo sentimento pessoal desaparecerá, ante esse ensinamento tão suave, contido nestas palavras do Cristo: Amai-vos uns aos outros, como a vós mesmos.
     Chegando a esta crença todos sereis médiuns; desaparecerão todos os vícios que degradam a vossa sociedade; tudo se tornará luz e verdade; o egoísmo, esse verme roedor e retardatário do progresso, que abafa todo sentimento fraterno, não terá mais domínio sobre as vossas almas; vossas ações não mais terão por móvel a cupidez e a luxúria; amareis vossa mulher porque ela terá uma alma boa e vos quererá, porque verá em vós o homem escolhido por Deus para proteger a sua fraqueza e porque ambos vos auxiliareis a suportar as provas terrenas e sereis os instrumentos votados à propagação de seres destinados a melhorar-se, a progredir, a fim de chegarem a mundos melhores, onde podereis, por um trabalho ainda mais inteligente, atingir o nosso supremo Benfeitor.  Ide, Espíritas! perseverai; fazei o bem pelo bem; desprezai suavemente os gracejadores; lembrai-vos de que tudo é harmonia na Natureza, que a harmonia está nos mundos superiores e que malgrado certos Espíritos fortes, tereis também a vossa harmonia relativa.
(Mensagem do Espírito Espírito São Luís – Revista Espírita de 1860).

transição planetária

 

NOSSA VIDA, NOSSO NAVIO

 

OBSERVAÇÃO DO COMPILADOR: Este artigo encerra uma  extraordinária demonstração de  capacidade linguística. O texto nos mostra que o espírito-autor havia sido um exímio navegante quando encarnado e aproveitou o seu conhecimento para falar ao médium em linguagem própria, utilizando-se de metáforas, considerando que a nossa vida não passa de um navio ao largo. Para melhor entendimento, levantamos a sinonímia de muitas palavras, algumas só do conhecimento de profissionais marítimos.
     Meu amado amigo:
     Não há na Terra coisa que te mereça a mais ligeira apoquentação.1 Deixa que Deus guie o teu barco, que ele chegará a porto de salvamento.
     Pode, em determinados momentos, singrar mais a um ou a outro lado; guinar de proa2 ou meter a popa3 debaixo d’água; quebrar-se o gurupés4 ou um mastaréu;5 romper-se a bujarrona,6ou fugir algum velacho7 com o vento; mas tudo isso são acidentes de viagem que servirão só para te fazer vibrar a alma em emoções estranhas que, quando em Terra firme e no convívio adorado dos teus amigos, contarás feliz, como recordações de um agridoce8 adorável.
     Costumas dizer que o tempo tem a propriedade de até nos fazer ter saudades das dores passadas.
     Pois, meu querido amigo, ao terminar a tua viagem pelo mar tenebroso da vida, quando dobrares o Cabo da Boa Esperança da morte, terás, senão saudades, pelo menos agradáveis recordações das vagas alterosas sobre que a quilha9 do teu batel10 passou, que se o fizeram gemer e adernar,11 também o impeliram mais violentamente para a Índia da perfectibilidade.
     Navegas, muitas vezes, sob o temporal desfeito, e o teu peito, habituado à luta com os elementos, treme e por vezes apavora-se; mas crê, crê, meu querido amigo, que o piloto do teu barco veste de branco; e o armador do teu navio tem-no seguro na sua soberana vontade e não o deixará perder.
     Podes encontrar grossa borrasca, nevoeiros cerrados, cerração densa; mas não receies que vás dar sobre os recifes, nem vás quebrar o barco sobre os cachopos12 da margem, nem vará-lo13 na praia, pois a tempo oportuno se fará ao largo, mudando de rota a tempo de se livrar da rascada.14
     Bem sei que poucos são os dias em que encontras calmaria pela proa, e muito menos aqueles em que navegas com vento de feição;15 mas sempre que possas põe-te de capa,16 ou navega à bolina,17 e dá cordel ao barco sem receio.
     Essas poucas ocasiões de descanso na tempestade servirão para refazeres a tripulação, para tomares mantimentos ou fazer aguada.
     Tu, como capitão do barco, não descanses, porém.
     Vigia tudo. Examina escotilhas,18 cabos, mastros, velame,19 e tudo o que na hora própria te for preciso. Terás muito tempo para descansares, quando chegares ao porto abrigado,20 termo da tua derrota,21 onde o Armador22 Supremo te dará o preço da viagem, e o tempo necessário para refazeres as forças exaustas pela fadiga.
     Até então não descansarás, meu querido amigo, até então não descansarás.
     Mais uma vez ainda, não receies nunca o temporal, por maior que seja. O Santelmo23 acompanhará o tope24 do mastro mais alto do teu navio; e o piloto não deixará de velar25 nem de guiar ao leme.
     Presta atenção aos ventos, para mandares orçar26 a tempo próprio. Cartas a examinar – a tua consciência. Bússola, a tua fé. Esperança em Deus, e ao largo.27
     Boa viagem. Que a Senhora dos Navegantes te acompanhe. (Mensagem de um Espírito que se denominou “Um Marinheiro” – Obra: Do País da Luz  volume 1 – Médium: Fernando de Lacerda).
OBSERVAÇÃO: 1 – Apoquentação = irritação; 2 – Guinar de proa = desvio súbito da parte anterior do navio; 3 – meter a popa = colocar a parte posterior do navio; 4 – gurupés = mastro colocado obliquamente na proa de um navio; 5 – mastaréu = mastro de pequena dimensão; 6 – bujarrona = vela triangular que se iça à proa da embarcação – injúria, ofensa (fig); 7 – velacho = vela dos mastros da proa; 8 – agridoce = diz-se do azedume que se reveste da aparência de doçura; 9 – quilha = parte inferior do navio, que constitui sua coluna vertebral, na qual se apóiam todas as outras peças; 10 – batel = pequeno barco, canoa; 11 – adernar = inclinar-se (o navio) submergindo mais de um lado; 12 – cachopos = rochedos à flor da água, escolhos, obstáculos perigosos; 13 – vará-lo = encalhá-lo; 14 – rascada = tipo de rede, enrascada, aperto; 15 – feição = favorável; 16 – capa = manobra que permite a um navio governar-se em zona perigosa, ou com tempo mau; 17 – bolina – cabo destinado a sustentar a vela e dar-lhe a inclinação necessária, conforme a direção do vento; 18 – escotilhas = aberturas nos navios que põem em comunicação entre si as cobertas, o convés e o porão; 19 – velame = conjunto de velas de um navio, ou de um de seus mastros; 20 – porto abrigado = mundo espiritual (entendo eu, o compilador); 21 – termo da tua derrota = final do teu caminho, do teu roteiro, do rumo do teu navio; derrota aí é uma expressão marítima que quer dizer: rumo dos navios; caminho; roteiro; no caso: final da tua vida; 22 – Armador = aquele que arma ou equipa um navio para a navegação (no caso presente: DEUS); 23 – Santelmo = chama azulada que, especialmente durante as tempestades, aparece nos mastros dos navios, por efeito da eletricidade; 24 – tope = extremidade dos mastros, onde se desfraldam as flâmulas; 25 – velar = estar alerta ou vigilante; 26 – orçar = voltar a frente do navio para o lado do vento, servindo-se do leme; 27 – ao largo = em alto-mar (isto é: à vida)

 

QUE É UM ESPÍRITA?

 

     Em “Iniciação no Espiritismo”, pergunta G. Mélusson: – “Que é um espírita?” E responde: “Ser espírita é, antes de tudo, praticar o bem e a moral que a Doutrina Espírita ensina e isto se pode dar, tanto com um que nunca assistiu a uma experiência, ou que absolutamente não se interessa pelas experiências, como com outro que tenha paixão pelos fenômenos, desde o mais vulgar, o da mesa, até o mais interessante, o da escrita mecânica; desde o mais maravilhoso, o da incorporação mediúnica, até ao mais incrível, o da reconstituição temporária do corpo físico do Espírito desencarnado.” E prossegue: “Outros há, finalmente, que, pelo estudo do verdadeiro Espiritismo, chegaram à compreensão do dever, à concepção da fraternidade universal e que, com ou sem os fenômenos, se acham cônscios do destino humano, do porquê da vida, do objetivo final, e agem de acordo com as ideias que de tudo isso adquiriram”. E acentua mais adiante – “Importa isto em dizer que o bom espírita possui o espírito da mais ampla tolerância e indulgência para com todos, menos para consigo mesmo.” E continua: “O espírita ponderado dá sempre mostras de bom humor, nunca se encoleriza e esforça-se por combater em si a impaciência, a vivacidade, a acrimônia. De nenhum modo se zanga e tudo perdoa aos outros; foge às querelas, ao arrebatamento, à exasperação; jamais se revolta, ainda que contra a mais flagrante injustiça, que só lhe inspira piedade, sacrifício e reparação, nunca furor, violência ou desordem. Por isso é que o espírita refletido é evolucionista e não revolucionário, ao buscar a realização do ideal de justiça, de fraternidade e de igualdade a que aspira”.
     Vê-se, pelo que transcrevemos, como é árduo o trabalho de reforma íntima a que deve submeter-se quem quer que deseje ser mesmo um espírita. Tais obrigações são ainda mais rigorosamente reclamadas daqueles que aceitam a responsabilidade de direção e orientação no Espiritismo. A disciplina não pode estar longe no comportamento dos disciplinadores. Sendo, como é, o Cristianismo primitivo em nova fase, o Espiritismo cristão está adstrito às normas indicadas nas obras da Codificação kardequiana, sob a luz do Evangelho.
(Anuário Espírita 1968). 

obras de andré luiz

 

OS INIMIGOS DO PROGRESSO

 

     Os inimigos do progresso, da luz e da verdade trabalham na sombra; preparam uma cruzada contra as nossas manifestações; não vos preocupeis com isto. Sois sustentados poderosamente; deixai que se agitem na sua impotência. Contudo, por todos os meios que estão em vossa força, dedicai-vos a combater, a aniquilar a ideia da eternidade das penas, pensamento blasfemo contra a justiça e a bondade de Deus, fonte a mais fecunda da incredulidade, do materialismo e da indiferença que invadiram as massas, desde que sua inteligência começou a se desenvolver. Prestes a se esclarecer, mesmo quando apenas desbastado, bem depressa o Espírito apreendeu a monstruosa injustiça; sua razão a repele e, então, raramente deixa de confundir, no mesmo ostracismo, a pena que revolta e o Deus ao qual ela é atribuída. Daí os males sem número que se precipitaram sobre vós, e para os quais trazemos o remédio. A tarefa que vos assinalamos vos será tanto mais fácil, quanto as autoridades sobre as quais se apoiam os defensores desta crença têm, todas, se furtado a um pronunciamento formal. Nem os Concílios, nem os padres da Igreja fecharam essa grave questão. Se, conforme os próprios Evangelhos, e tomando ao pé da letra as palavras emblemáticas do Cristo, ele ameaçou os culpados com um fogo que não se extingue, um fogo eterno, absolutamente nada, em suas palavras, prova que haja condenado os culpados eternamente.
     Pobres ovelhas desgarradas, sabei ver o Bom Pastor que vem de longe e que em vez de querer, para sempre, vos banir a todos de sua presença, ele mesmo vem ao vosso encontro para vos reconduzir ao aprisco. Filhos pródigos, deixai o vosso exílio voluntário; dirigi vossos passos para a morada paterna. O pai vos abre os braços e está sempre pronto a festejar o vosso retorno à família.
(Mensagem do Espírito Lamennais – Revista Espírita de 1860.

 

RESPEITO ÀS CRENÇAS PASSADAS

 

     A fé cega é o pior de todos os princípios! Crer com fervor num dogma qualquer, quando a sã razão se recusa aceitá-lo como uma verdade, é fazer ato de nulidade e privar-se voluntariamente do mais belo de todos os dons que nos concedeu o Criador; é renunciar à liberdade de julgar, ao livre-arbítrio que deve presidir a todas as coisas na medida da justiça e da razão.
     Geralmente os homens são despreocupados e não creem numa religião senão por desencargo de consciência e para não rejeitar completamente suas boas e suaves preces que lhe embalaram a juventude, e que sua mãe lhes ensinou ao pé do fogo, quando a noite trazia consigo a hora do sono. Mas se esta lembrança por vezes se apresenta ao seu espírito, é, na maioria das vezes, com um sentimento de pesar que eles fazem um retorno a esse passado, onde as preocupações da idade madura ainda estavam enterradas na noite do futuro.
     Sim, todo homem lamenta esta idade despreocupada e muito poucos podem pensar em seus jovens anos!… mas, que deles resta um instante depois?… – Nada!…
     Comecei dizendo que a fé cega era perniciosa; mas nem sempre se deve rejeitar como fundamentalmente mau tudo quanto parece manchado de abusos, composto de erros e sobretudo inventado à vontade, para a glória dos orgulhosos e para o benefício dos interessados.
     Espíritas, deveis saber melhor que ninguém que nada se realiza sem a vontade do Mestre supremo; cabe-vos bem refletir antes de formular o vosso julgamento. Os homens são vossos irmãos encarnados e é possível que numerosos trabalhos dos tempos antigos sejam obras vossas, realizadas numa existência anterior. Os Espíritas, antes de tudo, devem ser lógicos com seu ensino e não atirar pedras às instituições e às crenças de outras épocas, apenas porque são de outra época. A sociedade atual necessitou, para ser o que é, que Deus lhe concedesse, pouco a pouco, a luz e o saber.
     Não vos cabe, pois, julgar se os meios por Ele empregados eram bons ou maus. Não aceiteis senão o que vos parece racional e lógico; mas não esqueçais que as coisas velhas tiveram a sua mocidade e que o que ensinais hoje tornar-se-á velho por sua vez. Respeito, pois, à velhice! Os velhos são vossos pais, como as coisas velhas foram precursoras das coisas novas. Nada envelhece, e se faltais a esse princípio para tudo o que é venerável, faltais ao vosso dever, mentis à doutrina que professais.
     As velhas crenças elaboraram a renovação que começa a se realizar!… Todas, desde que não fossem exclusivamente materiais, possuíam uma centelha da verdade. Lamentai os abusos introduzidos no ensino filosófico, mas perdoai os erros de outra época se, por vossa vez, quiserdes ser desculpados pelos vossos, ulteriormente. Não deis vossa fé ao que vos parece mau, mas não creiais também que tudo quanto hoje vos é ensinado seja expressão da verdade absoluta. Crede que em cada época Deus alarga o horizonte dos conhecimentos, em razão do desenvolvimento intelectual da humanidade.
(Espírito Lacordaire – Revista Espírita de 1867).

 

O CONSOLADOR

 

      A vinda do Cristo trouxe à vossa Terra sentimentos que, por um instante, a submeteram à vontade de Deus; mas os homens, obsecados por suas paixões, não puderam guardar no coração o amor do próximo, o amor do Mestre do céu. O enviado do Todo-Poderoso abriu à humanidade a rota que conduz ao repouso bem-aventurado; mas a humanidade recuou um passo imenso que o Cristo a tinha feito dar; caiu no carreiro do egoísmo e o orgulho a fez esquecer o seu Criador.
     Deus permite que ainda uma vez sua palavra seja pregada na Terra e tereis que o glorificar porque vos quis chamar, como primeiros, a crer no que mais tarde será ensinado. Rejubilai-vos, porque estão próximos os tempos em que essa palavra far-se-á ouvir. Melhorai-vos, aproveitando os ensinamentos que ele permite que vos demos.
     Que a árvore da fé, que neste momento fixa raízes tão vivazes, produza os seus frutos; que esses frutos amadureçam, como amadurecerá a fé que hoje anima alguns entre vós!
     Sim, meus filhos, o povo comprimir-se-á sobre os passos do novo mensageiro, anunciado pelo próprio Cristo, e todos virão escutar essa divina palavra, porque nela encontrarão a linguagem da verdade e o caminho da salvação. Deus, que permitiu que vos esclarecêssemos, sustentássemos vossa marcha até hoje, permitirá ainda que vos demos as instruções que vos são necessárias.
     Mas também vós, os primeiros favorecidos pela crença, tendes vossa missão a cumprir; tereis que trazer aqueles de entre vós que ainda duvidam das manifestações que Deus permite; tereis que fazer luzir aos seus olhos os benefícios daquilo que tanto vos consolou. Porque nos vossos dias de tristeza e de abatimento, vossa crença não vos sustentou? não fez nascer em vosso coração essa esperança que, sem ela, teríeis ficado no desencorajamento?
     Eis o que é preciso fazer partilhar os que ainda não creem, não por uma precipitação intempestiva, mas com prudência e sem chocar de frente os preconceitos longamente arraigados. Não se arranca uma velha árvore de um só golpe, como um broto de erva, mas pouco a pouco.
     Semeai desde já o que mais tarde quereis colher; semeai o grão que virá frutificar no terreno que tiverdes preparado e cujos frutos vós mesmos colhereis, porque Deus vos levará em conta o que tiverdes feito por vossos irmãos.
(Espírito Lamennais – Revista Espírita de 1868). 

 

OS SUPERIORES E OS INFERIORES

 

     A autoridade, tanto quanto a riqueza, é uma delegação de que terá de prestar contas aquele que se ache dela investido. Não julgueis que lhe seja ela conferida para lhe proporcionar o vão prazer de mandar, nem, conforme o supõe a maioria dos potentados da Terra, como um direito, uma propriedade. Deus, aliás, lhes prova constantemente que não é nem uma nem outra coisa, pois que a retira deles quando lhe apraz. Se fosse um privilégio inerente às suas personalidades, seria inalienável. A ninguém cabe dizer que uma coisa lhe pertence, quando lhe pode ser tirada sem seu consentimento. Deus confere a autoridade a título de missão, ou de prova, quando o entende, e a retira quando julga conveniente.
     Quem quer que seja depositário de autoridade, seja qual for a sua extensão, desde a do senhor sobre o seu servo, até a do soberano sobre o seu povo, não deve olvidar que tem almas a seu cargo; que responderá pela boa ou má diretriz que dê aos seus subordinados e que sobre ele recairão as faltas que estes cometam, os vícios a que sejam arrastados em consequência dessa diretriz ou dos maus exemplos, do mesmo modo que colherá os frutos da solicitude que empregar para os conduzir ao bem. Todo homem tem na Terra uma missão, grande ou pequena; qualquer que ela seja, sempre lhe é dada para o bem; falseá-la em seu princípio é, pois, falir ao seu desempenho.
     Assim como pergunta ao rico: Que fizeste da riqueza que nas tuas mãos devera ser um manancial a espalhar a fecundidade ao seu derredor, também Deus inquirirá daquele que disponha de alguma autoridade: Que uso fizeste dessa autoridade? Que males evitaste? Que progresso facultaste? Se te dei subordinados, não foi para que os fizesses escravos da tua vontade, nem instrumentos dóceis aos teus caprichos ou da tua cupidez: fiz-te forte e confiei-te os que eram fracos, para que os amparasses e ajudasses a subir ao meu seio.
     O superior, que se ache compenetrado das palavras do Cristo, a nenhum despreza dos que lhe estejam submetidos, porque sabe que as distinções sociais não prevalecem às vistas de Deus. Ensina-lhe o Espiritismo que, se eles hoje lhe obedecem, talvez já lhe tenham dado ordens, ou poderão dar-lhas mais tarde, e que ele então será tratado conforme os haja tratado, quando sobre eles exercia autoridade.
     Mas, se o superior tem deveres a cumprir, o inferior, de seu lado, também os tem e não menos sagrados. Se for espírita, sua consciência ainda mais imperiosamente lhe dirá que não pode considerar-se dispensado de cumpri-los, nem mesmo quando o seu chefe deixe de dar cumprimento aos que lhe correm, porquanto sabe muito não ser lícito retribuir o mal com o mal e que as faltas de uns não justificam as de outrem. Se a sua posição lhe acarreta sofrimentos, reconhecerá que sem dúvida os mereceu, porque provavelmente abusou outrora da autoridade que tinha, cabendo-lhe, portanto, experimentar a seu turno o que fizera sofressem os outros. Se se vê forçado a suportar essa posição, por não encontrar outra melhor, o Espiritismo lhe ensina a resignar-se, como constituindo isso uma prova para a sua humildade, necessária ao seu adiantamento. Sua crença lhe orienta a conduta e o induz a proceder como quereria que seus subordinados procedessem para com ele, caso fosse o chefe. Por isso mesmo, mais escrupuloso se mostra no cumprimento de suas obrigações, pois compreende que toda negligência no trabalho que lhe está determinado redunda em prejuízo para aquele que o remunera e a quem deve ele o seu tempo e os seus esforços. Numa palavra: solicita-o o sentimento do dever, oriundo da sua fé, e a certeza de que todo afastamento do caminho reto implica uma dívida que, cedo ou tarde, terá de pagar.

 

A VIRTUDE

 

      A virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Ser bom, caritativo, laborioso, sóbrio, modesto, são qualidades do homem virtuoso. Infelizmente, quase sempre as acompanham pequenas enfermidades morais que as desornam1 e atenuam. Não é virtuoso aquele que faz ostentação da sua virtude, pois que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e tem o vício que mais se lhe opõe: o orgulho. A virtude, verdadeiramente digna desse nome, não gosta de se estadear.2 Adivinham-na; ela, porém, se oculta na obscuridade e foge à admiração das massas. S. Vicente de Paulo era virtuoso; eram virtuosos o digno cura d’Ars e muitos outros quase desconhecidos do mundo, mas conhecidos de Deus. Todos esses homens de bem ignoravam que fossem virtuosos; deixavam-se ir ao sabor de suas santas inspirações e praticavam o bem com desinteresse completo e inteiro esquecimento de si mesmos.
    À virtude assim compreendida e praticada é que vos convido, meus filhos; a essa virtude verdadeiramente cristã e verdadeiramente espírita é que vos concito a consagrar-vos. Afastai, porém, de vossos corações tudo o que seja orgulho, vaidade, amor-próprio, que sempre desadornam3 as mais belas qualidades. Não imiteis o homem que se apresenta como modelo e trombeteia ele próprio suas qualidades a todos os ouvidos complacentes. A virtude que assim se ostenta esconde muitas vezes uma imensidade de pequenas torpezas e de odiosas covardias.
     Em princípio, o homem que se exalça,4 que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter. Entretanto, que direi daquele cujo único valor consiste em parecer o que não é? Admito de boa mente que o homem que pratica o bem experimente uma satisfação íntima em seu coração; mas, desde que tal satisfação se exteriorize, para colher elogios, degenera em amor-próprio.
     Ó vós todos a quem a fé espírita aqueceu com seus raios, e que sabeis quão longe da perfeição está o homem, jamais esbarreis em semelhante escolho. A virtude é uma graça que desejo a todos os espíritas sinceros. Contudo, dir-lhes-ei: Mais vale pouca virtude com modéstia, do que muita com orgulho. Pelo orgulho é que as humanidades sucessivamente se hão perdido; pela humildade é que um dia elas se hão de redimir.
(Espíritos de Francisco, Nicolau, Madalena – Paris 1863 – Evangelho Segundo o Espiritismo).

 

O PENSAMENTO É LIVRE

 

     De há muito que tenho em sentido vir falar-te e trazer o meu quinhão para a obra singular em que andas empenhado. Circunstâncias várias, porém, têm impedido que o tenha podido fazer.
     Chegou a oportunidade; e, visto que chegou, vou aproveitá-la.
     Não há grande mérito em afirmarmos daqui a existência da vida, que aí nos comprazemos negar. Nem mérito nem necessidade.
     É um fato natural. Seria contrassenso esperar o contrário. Está afirmada pela nossa própria existência. Ou ela não existiria e nós não viríamos, ou se nós viemos é porque ela existe.
     Não perco, pois, tempo a querer provar o que a minha presença demonstra. Seria cometer um pleonasmo, e os pleonasmos estão fora dos meus hábitos.
     Sendo assim, como é, resta-nos só uma coisa a apreciar. É esta: – Porque será que o homem põe tanta fereza em sustentar a sua não existência além da morte?
     Por mim julgarei.
     Não deixa de ser incontroversa verdade que a religião constitui um freio.
     Ora, como todas as religiões, mais ou menos alumiadas pela luz das civilizações, de que são produto e reflexo, se baseiam, também mais ou menos, na existência de Deus e da alma, seja qual for a forma por que pretendam justificar estas duas existências, segue-se que não há religião que não constitua um poderoso elemento para conduzir o animal humano a certo e determinado fim.
     Para o conduzir ou pretender conduzi-lo, o que não é bem o mesmo.
     Se é certo que, de fato, as religiões são um modo seguro de arrebanhar e domesticar homens, num propósito salutar de os corrigir e de os amoldar a princípios de filosofia transcendental, especulativamente perfeita ou tendente à perfeição, não é menos certo que não há animal mais indomesticável que o homem, mormente quando se lhe mete na cabeça que é alguma coisa de superior.
     Apoiado nesta falaz superioridade, se sente o freio moral a pretender guiá-lo, para o fazer entrar na uniformidade passiva de um grande rebanho, sujeito, no redil da obediência, a um princípio único e a determinações restritivas, reage contra esse freio. E como ele é peia de que pelo seu próprio esforço pode libertar-se, conclui-se pelo ato, excessivamente cômodo, de o suprimir.
     Como é mais fácil e mais tranquilo viver sem pressões, de que ceder e amoldar-se a elas, ainda que no fundo da sua consciência as reconheça úteis e profícuas, tem o homem procurado, desde sempre, destruir tudo quanto sirva de obstáculos ao livre exercício da sua vontade.
     Convenho em que de muito lhe tem valido, para o seu aperfeiçoamento moral, espiritual e até mesmo material, esse eterno gérmen de revolta, ingênito em todo cérebro humano; essa eterna aspiração de liberdade, que acalenta os sonhos do homem e lhe move e rege o pensamento; mas também não é menos certo que muitas vezes, precipitado no caminho das reivindicações, quer materiais, quer intelectuais, corre doido, cego, como cavalo fogoso sem rédea nem governo.
     Passa a meta, ultrapassa o limite razoável onde era justo que parasse, e arremessa-se por despenhadeiros, indo encontrar o estropiamento ou a morte, onde imaginaria achar a liberdade e a vida.
     As religiões, como coisas incompreensíveis e maravilhosas ao vulgo, feitas de princípios eternos e assentes em bases inamovíveis, constituem um estorvo ao libérrimo exercício do pensamento humano. Limitam-lhe a zona onde ele pode desenvolver-se, e os assuntos que podem ser submetidos ao seu justo exame.
     Deixam entrever horizontes infinitos, que constituem o desespero do homem por não os poder alcançar e explicar.
     O revoltado, como os não pode atingir, relega-os, suprime-os da sua vida.
     Suprime-os por efeito da sua vontade, como por efeito da sua vontade cerra os olhos para poder negar a luz. Mas no fim de todo o seu esforço, nem a luz deixou de existir, nem os princípios que tentou suprimir desapareceram.
     E, na maioria, se não na generalidade dos casos, nem mesmo da sua própria consciência conseguiu a supressão.
     Felizes os modestos e os conformados, que norteiam o seu viver dentro do âmbito que aquele limite lhes proporciona!
     Se dentro dele guiam a sua vida pelo farol da justiça e pela bússola da bondade, serão aí iluminados pelo sol radiante da esperança, acariciados pelo brando calor da tranquilidade de espírito, e ao aportarem, no fim da viagem, ao porto desconhecido da morte, encontrarão a felicidade.
     Os outros, os ambiciosos da liberdade plena, os insubmissos ao respeito, os que farão vogar o seu batel ao sabor desconcertado do seu pensamento sem governo, não raro darão com ele sobre os recifes do desespero, e em vez do apetecível descanso final, virão ao encontro de mágoas e dores, que, pela sua intensidade e pelo pavor do inesperado, lhes darão a sensação tétrica de uma eternidade de horror.
     Não venho fazer confissões do que se passou comigo. Basta que enuncie o fato para cada um tirar dele as ilações que lhe aprouver.
     Já não é pequeno favor falarmos-lhes daqui, prevenindo-os dos perigos, se são incautos; aconselhando-os se são contumazes ou inexperientes; alumiando-os, se lhes falta luz; ou guiando-os se forem cegos de entendimento.
     Isso faço também.
     Para que alguém tire proveito do que lhe digo, não reconheço vantagem em confidenciar a toda a gente o que comigo se passou.
     Nunca tive o hábito de aliviar-me, para carregar os outros. Tirarmos de nós segredos e entregá-los àqueles que nada têm com eles, é alijarmos responsabilidades e deveres para quem dessas responsabilidades e desses deveres não têm que fazer-se depositários.
     Se nós não sabemos ou não queremos conservar e guardar o que nos pertence, não temos direito de esperar que os outros façam melhor uso daquilo em que não têm nenhum interesse.
     Sempre pensei e procedi assim.
     No círculo limitado em que vivi, chamavam-me taciturno e misantropo.
     Não era. Era prudente e metódico. Adotava e seguia o processo que me parecia mais consentâneo com o resultado dos meus estudos sobre os homens e sobre as coisas; e seguindo agora o processo igual àquele com que me dei aí otimamente, suponho usar de um benefício conquistado pelo meu trabalho honesto.
     Procurei dar sempre aos outros a impressão nítida da síntese a que o meu espírito chegava, na resultante da elaboração metódica e regular dos meus raciocínios, naquilo sobre que fazia incidir o meu estudo. Podia errar, e muitas vezes errei; mas procurava destacar um cunho de honestidade e de retidão, o meu modo de ver e de apreciar.
     Diligenciei pôr em tudo uma réstia de luz, que aclarasse o que de natureza própria não era muito claro; e àquilo que não carecia de muita luz para iluminar-lhe o vulto, procurei pô-lo de modo que melhor pudesse ser visto e julgado.
     Claro é que muitas vezes me enganei; mas se eu, que buscava ser probo e consciencioso no meu trabalho, me enganei, o que terá sucedido a tantos que, por imprevidência, descuido ou maldade, só têm buscado confundir tudo, escurecer tudo. Apresentava as conclusões a que chegava. Era esse o meu fim.
     Mostrar os meios, os argumentos, as induções e deduções, o longo trabalho paciente e extenuante a que me entregava para chegar a essas conclusões, era supérfluo; e detestei sempre o supérfluo.
     Daqui sigo o mesmo processo.
     Cheguei rapidamente, logicamente, à conclusão de que o homem faz mal em entregar-se livremente, e de maneira desordenada, a saborear a ambrosia da ampla liberdade de pensamento, sem peias nem restrições. Isto digo para aí.
     Deve meditar-se que tudo tem um limite; e nada há que tenha limite mais próximo do que o pensamento humano, que se crer ser livre como o ar. Ora em verdade o ar é livre; mas a coisa mais flexível e diáfana estorva e impede a sua passagem.
     Assim, o pensamento é livre, mas a cada momento, o que proclama a sua liberdade, tem de reconhecer que as mais ligeiras reflexões tolhem a sua expansão.
     A razão, que é o equilíbrio das faculdades intelectuais coarta-lhe a cada momento os voos. É como uma águia presa por uma corrente a um rochedo.
     O pensamento pode mergulhar-se no infinito. Tem essa possibilidade; mas é como se mergulharmos a vista na escuridão. Olhamos mas não vemos nada. Ele sobe, profunda, tenta, mas só consegue saber que cada vez ignora mais.
     Nesse infinito vai reconhecer que o seu limite está adstrito ao pouco em que se constitui o seu conhecimento.
     Espraia-se em conjecturas, alonga-se em suposições, enriquece-se em hipóteses; mas depois de esforços sem nome, de tentativas sem conto, chega à triste realidade de que a verdade conhecida é uma poalha, insignificante conquista do seu trabalho.
     A sua ampla liberdade, liquida, por fim, no reconhecimento de que é uma desconsoladora ilusão. O pensamento ilimitado é como a vista na escuridão: esbarra nas trevas.
     Só pode ser livre nos mentecaptos, nos irrefletidos, nos irresponsáveis.
     Quanto mais poderoso e mais belo é o cérebro em que ele se elabora, maior é a responsabilidade da sua manifestação, e mais avultadas são as dificuldades que ele tem a vencer para ser livre.
     Deve dar muita volta dentro da caixa craniana, que lhe serve de receptáculo elaborante, de retorta purificadora, antes de conquistar o direito à sua expansibilidade fora do ser que o produziu. Deve ser como a língua, que deve dar muitas voltas na boca antes de proferir coisas que desconheça.
     Se a prudência aconselha tão úteis precauções, como há de dar-se-lhe a alforria absoluta?
     É verdade que se estabeleceu que a liberdade de pensamento seja só para a libérrima apreciação da ideia de Deus. Está convencionado que os livres pensadores sejam só negativistas.
     Na negação é que reside a liberdade. Ora, a negação, em filosofia, é a suprema manifestação do inexistente, como nas ciências concretas é a suprema manifestação da ignorância.
     Sendo a negação – o nada – a liberdade que essa negação representa equivale-se a nada também.
     Será desconhecimento, será preconceito, será orgulho: tudo coisas mesquinhas, de significação restrita e âmbito acanhado, e nunca a sintetização dessa amplidão infinita, sem raia e sem obstáculos, que evoca ao nosso espírito a ideia de pensamento livre.
     Em tudo que se não relacione com a ideia de Deus, não há livres pensadores. Até nesses, a razão humana força ao reconhecimento de dificuldades, muitas vezes insuperáveis, ao livre exercício do pensamento. Tem sempre que amoldar-se, modificar-se, segundo os assuntos sobre que tem de incidir.
     Só os irresponsáveis podem desconhecer as regras que a necessidade impõe aos homens de são juízo.
     Não deixa de ser verdade, porém, que a irresponsabilidade nem sempre é um triste direito só dos idiotas, é também, muitas vezes, uma conquista ou um apanágio dos maus ou dos inconsequentes.
     Se não pretendem usufruí-la em todos os atos vulgares da vida real e física, como a usufruem nos domínios inatingíveis da espiritualidade, é porque a sociedade organizou a sua defesa contra essa espécie de insubmissos, de eternos revoltados, de livres exploradores da vida, e corrige-os, e tolhe-lhes o amplo exercício de tão estranhas aspirações, ergastulando-os, e sequestrando-os ao seu convívio; limitando-lhes, assim, de um modo para eles muito lamentável, a vastidão sonhada do seu campo de ação.
     Ora, Deus não é como a sociedade. Não se defende. Deixa libérrima a ação ao homem para guiar aí a sua vida como lhe aprouver.
     No amplíssimo uso dessa liberdade amplíssima, vingam-se contra Ele, dos obstáculos que a sociedade lhes opõe; e conquistam, com grande entono de ousadia, o direito de se proclamarem livres.
     São livres contra Deus, como o são contra os espaços siderais; livres, mas presos à pequenez mesquinha da sua carcaça material; sem que, de fato, se desloquem da Terra onde estão agrilhoados.
     Fazem mal os que assim procedem.
     Esse inconsciente direito, essa grandiosa conquista da rebelião ignorante, é um mal que cedo reconhecerão, e de que amargamente pagarão o gozo.
     Atiram, de fato, fora o freio da ideia religiosa, adquirindo uma desenvoltura de pensar e de proceder, que lhes dá a ilusão da liberdade plena e do pleno domínio da sua vontade. Mas ficam-se no simples gozo dessa ilusão.
     O que se libertar de Deus, não se liberta da dúvida, nem do preconceito, e muito menos da repressão social que o cerca, cingindo-o, em todos os movimentos, como a própria atmosfera.
     Não fará senão o que os outros quiserem; não dirá senão o que os outros consentirem.
     O seu pensamento, que não encontra a ideia deísta nem o receio futuro a embargar-lhe o voo, encontra, todavia, como anteparo à sua ampla expansão, na Terra, a conveniência dos homens, a fiscalização da justiça humana, e a organização social da coletividade;
     Dentro destes três fatores de correção, ele vai topar com o obstáculo, frágil ou poderoso, mais sempre bastante, que não só lhe não deixa a ação livre, como lhe não permite a exteriorização do seu pensar, senão nos moldes que a sociedade adotou, como modelos clássicos, a que todos devem obediência.
     Há ainda indivíduos que constituem exceção à regra estabelecida? Há. Além dos iconoclastas, que presumem que da sua ação e das suas ideias há de vir, em súbito cataclismo, o desaparecimento de tudo que os cerca, como de um simples golpe do seu pensamento audaz desapareceu, para eles, o Deus que tanto preocupa os outros, há os criminosos – ou, pelo menos, assim considerados pelas leis sociais – que praticando atos de liberdade plena, como as feras, como elas, são perseguidos e monteados.
     Misturados com esses há ainda a plêiade dos ingênuos e dos simples, que se deixam seduzir por falazes ilusões, e por teorias vazias de senso comum.
     Deslumbra-os a novidade, ufana-os o orgulho de se proclamarem livres de alguma coisa, quando, no seu foro íntimo, se reconhecem animais destinados a toda a carga e a toda a prisão, e são conduzidos, como rebanho panúrgico por qualquer charlatão hábil.
     Sentem necessidade de estadearem uma independência que não têm, porque se subordinam, inconscientemente, ao mais atrabiliário dizedor de teorias arrevesadas e chochas, e ao primeiro sobressalto de remorso caem em si, em genuflexão de terror. Proclamam, constantemente, e em altas vozes, a sua independência, o seu livre-arbítrio, a sua vontade libérrima, o seu pensamento desempoeirado de velharias ou de preconceitos, para se darem à embriagadora ilusão de uma realidade que não existe.
     São inofensivos. Enganaram-se no caminho; mas não têm dificuldade em retroceder.
     Sentem sempre grande felicidade na confissão do erro, e põem todo o empenho no propósito da emenda. Não se enganarão mais; e são, depois, os de passo mais firme, mais serenos, de maior força e mais consciente audácia, no caminhar pela vida além.
     Boas almas, que a tentação desencaminha, mas de que nunca conseguirá fazer coisa ruim.
     Quem tiver o cérebro atreito a trabalho reflexivo, pense no que deixo dito, sem se importar com quem é que o diz.
     O nome, é uma marca; e não se mostra muito assisado quem adquire as coisas pela marca, e não pelo valor que representam.
     Passei aí a vida a compilar fatos para simular história, no propósito leal e honesto de querer orientar os que depois de mim viessem na conquista da verdade, e no desempoeiramento da lenda, que cercava, como pesada nebulosa, muito caráter mau, muito criminoso glorificado.
     Se agora volvo à Terra a dizer coisas inusitadas para muitos, é ainda no mesmo propósito leal e honesto de orientar quem, de boa-fé, se deixe arrastar em caminho errado e resvaladiço.
     Continuarão aí a admirar os ídolos que ajudei a escavacar? A culpa não é minha.
     Continuarão a seguir um caminho errado na fantástica conquista da liberdade contra Deus, por a não poderem conseguir contra os homens, desprezando todos os salutares princípios de correção, de morigeração, de perfectibilidade, que a sua ideia representa ante a organização ferina da individualidade humana?
     A culpa também não será minha, porque, com o mesmo propósito altruísta, cumpro o meu dever, vindo proclamar a verdade.
(Espírito de Joaquim Pedro D’Oliveira Martins – Obra: Do País da Luz –  tomo 3)

 

AMOR E LIBERDADE

 

     Deus é amor e liberdade. É pelo amor e pela liberdade que o Espírito se aproxima dele. Pelo amor desenvolve, em cada existência, novas relações que o aproximam da humildade; pela liberdade escolhe o bem que o aproxima de Deus. Sede ardentes na propagação da nova fé. Que o santo ardor que vos anima jamais vos faça atingir a liberdade alheia. Evitai, por uma insistência muito grande junto à incredulidade orgulhosa e temível, exasperar uma resistência meio vencida e prestes a render-se. O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno. Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesses morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor da liberdade.
(Espírito Abelardo – Revista Espírita de 1860).

 

OS MUNDOS ENVELHECEM

 

     Os mundos se esgotam envelhecendo e tendem a dissolver-se para servir de elementos de formação de outros universos. Devolvem, pouco a pouco, ao fluido cósmico universal do espaço o que haviam tirado para se formar. Além disso todos os corpos se gastam pelo atrito; o movimento rápido e incessante do globo através do fluido cósmico tem por efeito diminuir constantemente a massa, posto que numa quantidade inapreciável num dado tempo.
     Em minha opinião a existência dos mundos pode dividir-se em três períodos: Primeiro período: Condensação da matéria, durante o qual o volume do globo diminui consideravelmente, mas a massa continua a mesma; é o período da infância. Segundo período: Contração, solidificação da crosta, surgimento dos germes, desenvolvimento da vida até o aparecimento do tipo mais perfectível. Nesse momento o globo está em toda a sua plenitude: é a idade da virilidade; perde, mas muito pouco, seus elementos constitutivos. À medida que seus habitantes progridem espiritualmente, ele passa ao período de diminuição material; perde, não só por causa do atrito, mas também pela desagregação das moléculas, como uma pedra dura que, ruída pelo tempo, acaba por virar poeira. Em seu duplo movimento de rotação e de translação, deixa no espaço parcelas fluidificadas de sua substância, até o momento em que a sua destruição for completa.
     Mas então, como a força atrativa está na razão da massa, – eu não digo do volume – diminuindo a massa, suas condições de equilíbrio no espaço se modificam; dominado por globos mais poderosos, aos quais não pode constituir contrapeso, produzem-se desvios em seus movimentos, em sua posição em relação ao sol; sofre novas influências e daí nascem mudanças nas condições de existências de seus habitantes, a espera que ele desapareça do cenário do mundo.
     Assim, nascimento, vida e morte; infância, virilidade e decrepitude, tais são as três fases pelas quais passa toda aglomeração de matéria orgânica ou inorgânica. Só o espírito, que não é matéria, é indestrutível. (Mensagem do Espírito  Galileu – Revista Espírita de 1868).
OBS.: Em que se tornam os habitantes de um mundo destruído? Fazem o que fazem os moradores de uma casa em demolição: vão morar alhures, em melhores condições. Para eles os globos não passam de estações temporárias; mas é provável que quando um globo tenha chegado a seu período de destruição, desde longa data tenha cessado de ser habitado, porque, então, já não pode fornecer elementos necessários à manutenção da vida. Tudo é problema insolúvel na natureza, desde que se faça abstração do elemento espiritual; tudo se explica, ao contrário, claramente e logicamente, desde que se leve em conta este elemento. É de notar que, conforme a ordem de ideias expressas na comunicação acima, o fim de um mundo coincidiria com a maior soma de progresso de seus habitantes, compatível com a natureza desse mundo, em vez de ser o sinal de uma reprovação que votaria a maior parte à danação eterna.
(Allan Kardec).

 

A VINGANÇA

 

     A vingança é agradável ao coração, diz o poeta. Oh! pobres cegos, que dais livre curso à mais feia paixão: credes fazer mal ao próximo quando o golpeais e não notais que estes se voltam contra vós. Ela não só é um crime, mas incompreensão absurda. É, como seus irmãos o rancor, o ódio, o ciúme, filhos do orgulho, o meio de que se servem os Espíritos das trevas para atrair a si aqueles que receiam lhes escapem; é o mais infalível instrumento de perdição posto nas mãos dos homens pelos inimigos que se encarniçam na sua derrota moral. Resisti, filhos da Terra, a esse culposo arrastamento e, tende certeza, se alguém mereceu vossa cólera, não será no auge do rancor que encontrareis a calma de consciência. Ponde nas mãos do Todo-Poderoso o cuidado de se pronunciar quanto aos vosso direitos e à justiça de vossa causa. Na vingança existe algo de ímpio e de degradante para o Espírito.
     Não, a vingança não é compatível com a perfeição. Enquanto uma alma conservar tal sentimento ficará nos porões do mundo dos Espíritos. Mas o vosso não será o eterno joguete dessa paixão infeliz. Posso garantir que a abolição da falsa noção do inferno eterno, ou antes, da danação eterna, que tem sido pretexto ou escusa para atos de vingança, será a aurora de uma nova era de tolerância e mansuetude, que não tardará a estender-se até às regiões privadas da vida moral. Poderia o homem condenar a vingança quando lhe apresentaram Deus como ciumento e se vingando por torturas eternas? Cessai, pois, ó homens, de insultar a divindade, emprestando-lhe vossas paixões ignóbeis. Então, ó habitantes da Terra, sereis abençoados por Deus. Vós que me escutais, procedei de modo que, liberta a vossa alma do vergonhoso motivo para atos contrários à caridade, mereçais serdes admitidos no conjunto sagrado, cujas portas só a caridade pode abrir.
(Espírito Pierre Ange – Revista Espírita de 1862). 

 

O PERDÃO

Como se pode achar em si a força para perdoar? A sublimidade do perdão é a morte do Cristo no Gólgota. Ora, já vos disse que o Cristo tinha resumido em sua vida todas as angústias e lutas humanas. Todos os que mereciam o nome de cristãos antes de Jesus-Cristo morreram com o perdão nos lábios: os defensores das liberdades oprimidas, os mártires das verdades e das grandes causas de tal modo compreenderam a elevação e a sublimidade de sua vida que não faliram no último instante e perdoaram. Se o perdão de Augusto não é inteiramente sublime historicamente, o Augusto de Corneille, o grande trágico, é senhor de si como do universo, porque perdoa. Ah! como são mesquinhos e miseráveis os que possuíam o mundo e não perdoavam! Como é grande aquele que continha, no futuro dos séculos, todas as humanidades e perdoava! O perdão é uma inspiração e, por vezes, um conselho dos Espíritos. Infelizes os que fecham o coração a essa voz: como diz a Escritura, serão punidos porque tinham ouvidos e não escutavam. Então! Se quereis perdoar, se vós mesmos vos sentis fracos, contemplai a morte do Cristo. Aquele que se conhece a si próprio triunfa facilmente de si mesmo. Eis por que o grande príncipe da sabedoria antiga sabia, antes de mais nada, conhecer-se a si próprio. Antes de se lançar na luta, aos atletas para os jogos, para as lutas grandiosas ensinavam-se os meios seguros de vencer. Ao lado disso, nos liceus, Sócrates ensinava que havia um ser supremo e, algum tempo depois, séculos antes do Cristo, ensinava a toda a nação grega a morrer e perdoar. O homem vicioso, mesquinho e fraco, não perdoa; o homem habituado às lutas pessoais, às reflexões justas e sãs, perdoa facilmente.
(Espírito Lamennais – Revista Espírita de 1862).

O CASTIGO PELA LUZ

 

     NOTA: Numa das sessões da Sociedade Espírita de Paris, em que se havia discutido a perturbação que geralmente se segue à morte, um Espírito se manifesta espontaneamente à Sra. Costel, pela comunicação que se segue, e que não assina:
     “Por que falais da perturbação? por que essas palavras  vãs? Sois sonhadores e utopistas. Ignorais completamente as coisas de que vos pretendeis ocupar. Não, senhores, não existe perturbação, salvo, talvez, em vossos cérebros. Estou tão recentemente morto quanto possível; e vejo claro em mim, em redor de mim, em toda a parte… A vida é uma lúgubre comédia! Desajeitados os que se fazem retirar da cena antes de cair o pano… A morte é um terror, um castigo, um desejo, conforme a fraqueza ou a força dos que a temem, a desafiam ou a imploram. Para todos é uma amarga irrisão!… A luz me ofusca e penetra, como seta aguda, a sutileza de meu ser… Castigaram-me pelas trevas da prisão e pensaram castigar-me pelas trevas do túmulo ou as sonhadas superstições católicas. Ah! sois vós, senhores, que sofreis a escuridão e eu, o degradado social, pairo acima de vós… Quero continuar eu!… Forte pelo pensamento, desenho os avisos que ressoam em meu redor… Vejo claro… Um crime! é uma palavra! O crime existe por toda a parte. Quando praticado por massas de homens, glorificam-no; no particular, é odiado. Absurdo!
     Não quero ser lamentado… nada peço… eu me basto e saberei bem lutar contra esta luz odiosa”. (AQUELE QUE ONTEM ERA UM HOMEM).
     Tendo sido analisada esta comunicação na sessão seguinte, foi reconhecido, mesmo no cinismo da linguagem, um grave ensinamento e se viu na situação desse infeliz uma nova fase do castigo que atinge os culpados. Com efeito, enquanto uns são mergulhados nas trevas ou num isolamento absoluto, outros suportam, durante longos anos, as angústias de sua última hora, ou ainda se julgam no mundo; a luz brilha para este; seu Espírito goza da plenitude de suas faculdades; sabe perfeitamente que está morto e de nada se lamenta; não pede qualquer assistência e ainda desafia as leis divinas e humanas. Será que escapa à punição? Não: é que a justiça divina se realiza sob todas as formas, e o que constitui a alegria de uns, para outros é um tormento. Essa luz é o seu suplício, contra o qual se revolta e, malgrado o seu orgulho, ele o confessa, quando diz: “Eu me basto e saberei bem lutar contra essa luz odiosa”; e nessa outra frase: “A luz me ofusca e penetra, como seta aguda, a sutileza de meu ser”. As palavras sutileza de meu ser são características; ele reconhece que seu corpo é fluídico e penetrável pela luz, a qual não pode subtrair-se, e essa luz o traspassa como seta aguda.
     Solicitados a dar sua apreciação sobre o assunto, nossos guias ditaram as três comunicações seguintes, que merecem séria atenção:
     Há provações sem expiação, como há expiações sem provação. Evidentemente, na erraticidade, do ponto de vista das existências, os Espíritos estão inativos e à espera. Contudo, podem expiar, por causa de seu orgulho; a tenacidade formidável1 e intratável de seus erros não os retém, no momento de sua ascensão progressiva. Tendes um exemplo terrível na última comunicação, relativamente ao criminoso que se debate contra a justiça divina que o constringe, depois da dos homens. Neste caso, então, a expiação, ou antes, o sofrimento fatal que os oprime, em vez de lhes aproveitar e lhes fazer sentir a profunda significação de suas penas, os exalta na revolta, e lhes faz soltar esses murmúrios que as Escrituras, em sua poética eloquência, chamam ranger de dentes. Imagem excelente! perdida na dor, mas cuja revolta ainda é bastante grande para recusar e reconhecer a verdade da pena, e a verdade da recompensa!
     Os grandes erros se continuam muitas vezes e, mesmo, quase sempre, no mundo dos Espíritos. Do mesmo modo, as grandes consciências criminosas. Ser si mesmo, a despeito de tudo, e pavonear-se diante do infinito, assemelha-se a essa cegueira do homem que contempla as estrelas e que as toma por arabescos de um teto, como o criam os Gauleses do tempo de Alexandre.
     É o infinito moral! Miserável é aquele, ínfimo é aquele que, sob o pretexto de continuar as lutas e as fanfarronadas abjetas da Terra, não vê mais longe no outro mundo do que aqui embaixo! A esse a cegueira, o desprezo dos outros, a egoísta e mesquinha personalidade e a parada no progresso! É muitíssimo certo, ó homens, que existe um acordo secreto entre a imortalidade de um nome puro, deixado na Terra, e a imortalidade que guardam realmente os Espíritos em suas provações sucessivas. (Espírito Lamennais)
1 – formidável = pavorosa; terrível.
OBS.: Para compreender o sentido da frase: “Há provações sem expiação e expiações sem provação”, é necessário entender como expiação o sofrimento que purifica e lava as manchas do passado; depois da expiação, o Espírito está reabilitado. O pensamento de Lamennais é o seguinte: conforme as vicissitudes da vida sejam ou não acompanhadas pelo arrependimento das faltas que as ocasionaram, pelo desejo de as tornar aproveitáveis para seu próprio melhoramento, haverá ou não haverá expiação, isto é, reabilitação. Assim, os maiores sofrimentos podem não ter proveito para aquele que os suporta, se tais sofrimentos não o tornarem melhor, se não o elevarem acima da matéria, se ele não vir a mão de Deus, se não o fizerem dar um passo à frente; porque isto lhe será recomeçar em condições ainda mais penosas. Deste ponto de vista, dá-se o mesmo com as penas sofridas após a morte: o Espírito endurecido as sofre sem ser tocado pelo arrependimento. Eis por que as pode prolongar indefinidamente por sua própria vontade; é castigado, mas não se arrepende. (Allan Kardec).
     Precipitar um homem nas trevas ou em ondas de luz: o resultado não será o mesmo? Num caso, como no outro, ele nada vê do que o cerca e, até, habituar-se-á rapidamente à sombra do que à tripla claridade elétrica, na qual pode estar submerso. Assim, o Espírito, que se comunicou na última sessão, bem exprime a verdade de sua situação quando diz: “Eu saberei lutar contra esta luz odiosa!” Com efeito, essa luz é tanto mais terrível, tanto mais medonha quanto o atravessa completamente e torna visíveis e aparentes os seus secretos pensamentos. Eis um dos lados mais duros de seu castigo espiritual. Ele se acha, por assim dizer, internado na casa de vidro que pedia Sócrates e aí está ainda um ensinamento, porque o que teria sido a alegria e o consolo do sábio torna-se a punição infamante e contínua do malvado, do criminoso, do parricida, assombrado em sua própria personalidade.
     Compreendeis, meus filhos, a dor e o terror que devem tolher aquele que, durante uma existência sinistra, se comprazia em combinar, em maquinar os mais tristes malefícios no fundo de seu ser, onde se refugiava como uma fera em sua caverna e que, hoje, se acha expulso desse refúgio íntimo, onde se subtraía aos olhares e à investigação dos contemporâneos? Agora sua máscara de impassibilidade lhe é arrancada e cada um de seus pensamentos se reflete sucessivamente em sua fronte!
     Sim, de agora em diante, nenhum repouso, nenhum asilo para esse formidável criminoso! Cada pensamento mau – e Deus sabe se sua alma os exprime – se trai fora e dentro de si, como num choque elétrico superior. Quer fugir, foge numa carreira desabalada e desesperada, através dos espaços incomensuráveis e, por toda a parte, a luz! por toda a parte os olhares que nele mergulham! precipita-se novamente, em busca da sombra, da noite, e a sombra e a noite para ele não existem. Chama a morte em seu auxílio; mas a morte é um vazio e sem sentido. O infeliz foge sempre! marcha para a loucura espiritual, terrível castigo! dor horrível! onde se debaterá consigo mesmo para se desembaraçar de si próprio. Porque tal é a lei suprema além da Terra: é o culpado que, para si mesmo, se torna seu mais inexorável castigo.
     Quanto tempo durará isto? Até à hora em que sua vontade, enfim vencida, curvar-se sob a pungente pressão do remorso e em que sua fronte soberba humilhar-se ante suas vítimas apaziguadas e ante os Espíritos de justiça. E notai a alta lógica das leis imutáveis, nisto ainda ele cumprirá o que escrevia nessa comunicação altiva, tão clara, tão lúcida e tão tristemente cheia de si, dada sexta-feira última, entregando-se a um ato de sua própria vontade. (Um Espírito Protetor).
     A justiça humana não faz acepção da individualidade dos seres que castiga; medindo o crime pelo crime em si, fere indistintamente os que o cometeram, e a mesma pena atinge o culpado sem distinção de sexo e seja qual for a sua educação. A justiça divina procede diversamente: as punições correspondem ao grau de adiantamento dos seres aos quais são aplicadas; igualdade do crime não constitui igualdade entre os indivíduos; dois homens culpados no mesmo grau podem ser separados pela distância das provações, que mergulham um na opacidade intelectual dos primeiros círculos iniciadores, ao passo que o outro, os tendo ultrapassado, possui a lucidez, que liberta o Espírito da perturbação. Então não são mais as trevas que castigam, mas a acuidade da luz espiritual; ela atravessa a inteligência terrena e o faz experimentar a angústia de uma chaga posta a nu.
     Os seres desencarnados perseguidos pela representação material de seu crime sofrem o choque da eletricidade física: sofrem pelos sentidos; os que aniquila nas suas vagas amargas a lembrança dos fatos, para não deixar subsistir senão a ciência de suas causas.
     Pode, então, o homem, malgrado a criminalidade de suas ações, possuir um avanço anterior e, ao passo que as paixões o faziam agir como um bruto, suas faculdades afiadas o elevam acima da espessa atmosfera das camadas inferiores. A ausência de ponderação, de equilíbrio entre o progresso moral e o progresso intelectual, produz as anomalias muito frequentes nos períodos de materialismo e de transição.
     A luz que tortura o Espírito culpado é, mesmo, o raio espiritual inundando de claridade os recantos secretos de seu orgulho e lhe descobrindo a inanidade de seu ser fragmentário. Eis os primeiros sintomas e as primeiras angústias de agonia espiritual, que anunciam a separação ou dissolução dos elementos intelectuais materiais, que compõem a primitiva dualidade humana, e devem desaparecer na grande unidade do ser acabado. (Espírito Jean Reynaud).
Obs.: Estas três comunicações, recebidas simultaneamente, se completam e apresentam o castigo sob novo aspecto, eminentemente filosófico, um pouco mais racional que as chamas do inferno, com suas cavernas guarnecidas de navalhas. É provável que os Espíritos, querendo tratar a questão por um exemplo, tenham provocado a comunicação do Espírito culpado.
(Allan Kardec – Revista Espírita de 1864).

ORIGENS DO ESPIRITISMO

    

     A palavra Espiritismo é de data recente, a doutrina a que ela se aplica, que quer definir em uma palavra, é tão antiga quanto o mundo. Todavia, em nossa moderna civilização europeia-americana, a aparição dos fenômenos espíritas, sua classificação, sua determinação metódica datam por assim dizer de ontem.
     A história dessas manifestações, contada longamente pelos crentes da primeira hora, tem tal perfume sui generis(1), que pensamos dever contá-la resumidamente.
     Foi em dezembro de 1847, segundo um autor norte-americano(2), que uma família de origem alemã, a família Fox – cujo nome primitivo (Fuchs) havia sido americanizado – veio estabelecer-se em  uma povoação chamada Hydesville.(3) Esta aldeia está situada no condado de Wayne, circunscrição de Arcádia, nos Estados Unidos (Estado de Nova Iorque).
     A família Fox compunha-se do pai e da mãe, John Fox, sua mulher e três filhas. Se o Espiritismo chegar a ser (como é sua pretensão) a religião do futuro, os nomes das duas mais novas meninas Fox ficarão célebres na História. Uma, Margarida, tinha 15 anos; a outra Kate, tinha apenas doze.
     As pessoas que compunham a família Fox pertenciam à Igreja Episcopal Metodista, da qual eram, diz a Sra. Hardinge, “membros exemplares e incapazes de merecerem a suspeita de fraude ou duplicidade”.
     Alguns dias depois que se instalaram em sua nova residência de Hydesville, fatos extraordinários, cuja intensidade foi crescendo, produziram-se na casa.
     Observamos ainda uma vez que somos um simples narrador.
     Ouviram-se, conta a Sra. Emma Hardinge, pancadas nas paredes, no soalho e peças vizinhas, etc. Às vezes, estando a família reunida para a refeição da noite, fazia-se grande rumor no quarto de dormir das meninas; todos corriam a inteirar-se da causa do barulho; se bem que portas e janelas estivessem hermeticamente fechadas, não encontravam ninguém, mas os móveis estavam de pernas para o ar ou misturados uns com os outros! Esses móveis, mesmo em presença da família, eram agitados por movimento oscilatório como se estivessem sacudidos sobre as ondas. Este fato sucedia principalmente com o leito das meninas. Os Fox viam sua mobília mover-se como se estivesse animada de vida especial; ouviam-se passos no soalho. As meninas sentiam mãos invisíveis correndo sobre seus corpos; estas mãos eram quase sempre frias. Sucedia também que as meninas experimentassem a sensação de um grande cão a esfregar-se de encontro às suas camas.
     Freqüentemente, durante a noite, John Fox levantava-se acompanhado da mulher e, seguido das meninas Fox, rodeava sua propriedade, procurando surpreender os vizinhos trocistas, que, segundo pensavam, eram os autores das perturbações trazidas, à noite, por essas desordens que tanto tinham de insólitas como de desagradáveis.
     Como já se terá adivinhado, nenhum vestígio se descobria que indicasse a passagem de um ser humano.
     Enfim, em Fevereiro de 1848, a vida tornara-se insuportável na casa habitada pela família Fox; as noites passavam-nas sem dormir, e até os dias não eram isentos de perturbação. Durante todo o mês de março, ouviram-se os mesmo ruídos com variação de intensidade, mas, a 31 de março de 1848, eles foram mais fortes do que de costume. Pela centésima vez, John Fox e a Sra. Fox fizeram trancar as portas e janelas, investigando a procedência dos rumores; mas eis que um fato novo e inteiramente inesperado se revela: ouvem-se sons imitando manifestamente, e como por zombaria, os sons produzidos por portas e janelas, que eram abertas e fechadas! Desta vez, havia motivo para perder-se a cabeça.
     A mais nova das meninas, a pequena Kate Fox, vendo que esses ruídos não lhe ocasionavam mal algum, acabara por familiarizar-se com eles, e como, naturalmente, os atribuíam ao diabo, a menina Fox, sentindo-se sem dúvida com a consciência pura, tinha chegado a caçoar com o seu autor, a quem ela chamava o Sr. Pé-de-Cabra.
     Uma noite, fazendo estalar os dedos certo número de vezes, ela disse ao invisível barulhento:
     – Fazei como eu, Sr. Pé-de-Cabra.
     E instantaneamente o mesmo ruído foi repetido semelhante e outras tantas vezes, A menina fez ainda alguns movimentos com o dedo e o polegar, mas devagarzinho, e, com grande surpresa sua, foi dado o número de pancadas igual ao número de movimentos que ela havia executado silenciosamente.
     – Minha mãe” – exclamou ela – atenção! ele vê e ouve!
     A Sra. Foz, tão maravilhada como sua filha, disse ao misterioso companheiro: “Conte até dez”, e dez pancadas foram ouvidas. Foram feitas muitas perguntas, que tiveram respostas exatas. A pergunta: “Sois homem?” não teve resposta, mas muitas pancadas claras soaram quando indagaram: “Sois Espírito?”
     Com permissão do invisível visitante foram chamados os vizinhos, e grande parte da noite passou-se em fazer as mesmas experiências, com os mesmos resultados.
     Tal é a origem, o ponto de partida do moderno Espiritualismo “a primeira comunicação – diz Engênio Nus, em uma obra de que teremos ocasião de falar mais de uma vez – estabelecida por uma menina de doze anos com este fenômeno que devia em breve invadir a América e a Europa, negado pela Ciência, explorado por charlatães, ridicularizado pelos jornais, anatematizado pelas religiões, condenado pela justiça, tendo contra si todo o mundo oficial, mas por si esta força mais poderosa do que tudo: este atrativo do maravilhoso.”
     Assim, acabou-se por verificar que estes ruídos eram produzidos por um agente invisível, e que este agente se dava por um Espírito. Restava descobrir o meio de comunicar-se com tal Espírito; mas isso não tardou, e como se as bases do Espiritismo devessem simultaneamente estabelecer, dentro de poucos dias foram descobertas a mediunidade e o meio de comunicação entre este mundo material e o mundo espiritual, com o auxílio do spiritual telegraph, isto é, por meio dos rappings, ou pancadas indicando as letras do alfabeto.
     A descoberta da mediunidade resultou do fato de observar-se que os exercícios dos Espíritos executavam-se mais frequentemente em presença das Srtas. Fox e principalmente por meio da mais moça: Kate Fox.
     Segundo a Sra. Hardinge, verificou-se que, graças a certas forças magnéticas, alguns indivíduos possuíam o poder de médiuns, o qual era recusado ao comum dos mortais, e que este poder, ou antes esta força especial, diferia extremamente segundo os indivíduos que possuíam, e que era muito sensível às diversas emoções morais que a fazem variar de intensidade em um mesmo indivíduo. Resultaria também das observações feitas desde os primeiros momentos, por meio “das comunicações” ou “mensagens”, que este movimento espírita, isto é, a inauguração destas comunicações entre os habitantes dos dois mundos, foi preparado por “Espíritos” científicos e filosóficos que, durante sua existência sobre a Terra, se haviam ocupado especialmente de pesquisas sobre a eletricidade e sobre diversos outros fluidos imponderáveis. À testa destes Espíritos achava-se Benjamim Franklin, que freqüentemente, dizem, deu instruções para explicar o fenômeno, e indicou a maneira de aperfeiçoar, de desenvolver as vias de comunicação entre os vivos e os mortos. Numerosos Espíritos, tanto para dar uma nova demonstração do fenômeno como atraídos por afeições de família, dizem, vieram trazer provas irrefutáveis de sua identidade, anunciar que continuavam a viver, mas sob outra forma, que amavam sempre e que, da esfera mais feliz onde estavam colocados, velavam pelos que choravam sua morte, desempenhando, por alguma forma, junto deles, o papel de anjos de guarda.
     Os círculos, os harmoniosos meetings, recomendados pelos Espíritos, constituíram-se depressa e numerosos médiuns revelaram-se. As práticas espíritas espalharam-se como um rastilho de pólvora; mas não faltaram desgostos e nem tudo foi felicidade nas famílias dos médiuns. Não raramente os spiritual circles eram invadidos por fanáticos de diferentes seitas, e cenas selvagens acompanharam estas irrupções, em que houve a deplorar violências, grosserias e absurdos de toda a espécie.
     Foi uma confusão indescritível; uns anunciavam que o movimento indicava a volta próxima do Messias, que o millenium havia chegado, e que o fim deste mundo perverso estava próximo, etc.
     Naturalmente, os diferentes cleros das mil e tantas seitas ocuparam-se da questão; os padres católicos, julgando-se os mais fortes, confiantes e com grandes reforços de hissopes,(4) vieram exorcizar os Espíritos e as mesas caprizantes.(5) Mas as mesas possessas faziam coro e respondiam amém às orações exorcistas. O efeito era nulo: a água benta da Idade Média havia-se deteriorado!
     A família Fox, que não quis submeter-se e que se considerava encarregada da missão de espalhar o conhecimento desses fenômenos, foi expulsa da Igreja Episcopal Metodista. Ela refugiou-se em Rochester por causa da perseguição do Espírito batedor, que continuava, com menos sem-cerimônia ainda, a perturbar o seu lar. Mas em Rochester, cuja população carola como a de todas as cidades da América reparte-se em multidão de seitas, houve perseguições de outro gênero e, desta vez, devidas à maldade dos vivos. O povo amotinou-se contra os Fox; estes se ofereceram para dar uma prova pública dos fenômenos em presença da população de Rochester reunida na maior sala da cidade, em Corynthian hall. A primeira conferência espírita foi recebida com vaias e assobios; não obstante, depois de um destes tumultos que parecem ser o apanágio das reuniões públicas anarquistas, nomearam uma comissão. Após o mais minucioso exame, contra a geral expectativa, contra sua própria expectativa, a comissão concluiu pela realidade dos fenômenos anunciados. Mal satisfeitos, os cidadãos de Rochester elegeram segunda comissão, que foi mais rigorosa ainda do que a primeira. Os médiuns, isto é, as meninas Fox, foram revistadas e até despidas por comissários femininos: segundo relatório, ainda mais favorável do que o precedente.
     A indignação dos habitantes de Rochester exacerbara-se e, por insistência, uma terceira comissão foi nomeada, compondo-se de pessoas das mais incrédulas e escarnecedoras. As investigações foram ainda mais ultrajantes para as pobres mocinhas; mas, humilhada, a comissão foi obrigada a proclamar que Rochester não tinha razão. A exasperação dos populares era indescritível; falava-se de linchar médiuns e comissários, e, quando a leitura do relatório da comissão foi feita sobre o estrado do Corynthian hall, a família Fox, seus amigos e os comissários só deveram a sua salvação, segundo a Sra. Hardinge, à interferência de um quáquer, chamado George Willets, que, em razão do caráter pacífico de sua religião, tinha nestas circunstâncias dramáticas uma autoridade particular. O quáquer George Willets postou-se arrogantemente no alto do estrado, em frente da multidão que o ia invadir, e “declarou que a quadrilha de bandidos que queria linchar as duas raparigas só o conseguiria passando sobre o cadáver dele!”.
     Pouco faltou para que o Espiritismo, em seu começo, contasse por mártires os seus primeiros apóstolos.
     Seja qual for a opinião processada nesta matéria, o espetáculo dessas mocinhas, quase sofrendo o martírio daquela multidão exasperada por algumas pancadas e movimentos inexplicáveis de uma mesa, provoca a comoção. Além do interesse apresentado pelo fato, sob o ponto de vista da história do Espiritismo, pareceu-nos que havia ali um documento humano, como se diz hoje, merecendo as honras de uma menção especial.
     Como é natural, a curiosidade, o atrativo do maravilhoso também concorrendo, todos quiseram ver; a população, na América do Norte, interessou-se pela nova doutrina, parte do intuito de combatê-la, parte no de sustentá-la. Enquanto os homens sérios e particularmente os sábios de todas as ordens não se pronunciavam, muita gente, que não sabe ter opinião por si mesma, manteve-se reservada. Mas desde o dia em que a discussão atingiu as alturas de um debate científico, a questão mudou de aspecto e pode-se dizer que imediatamente a América do Norte se achou literalmente submergida pelas ondas do Espiritismo.
     Primeiro, o juiz Edmonds publicou um trabalho sobre investigações que ele empreendera com idéia de demonstrar a falsidade dos fenômenos espíritas. O resultado final foi diametralmente oposto ao que o autor primitivamente se propusera.
     Em seguida, o sábio Mapes, professor de Química na Universidade, depois “de repelir desdenhosamente as coisas”, foi obrigado a convir “que elas nada tinham de comum com o acaso, a fraude ou a ilusão”.
     Chegou a vez do Dr. Hare (Roberto), professor da Universidade de Pensilvânia, que publicou uma obra cuja repercussão foi considerável.
     Roberto Hare instituiu uma série de experiências muito engenhosas, demonstrando que em ausência de toda a pressão efetiva, só por aposição dos dedos de um médium, o instrumento com o qual o professor experimentava acusava um aumento de peso de muitas libras. Assim, como veremos mais tarde, o professor Crookes, de Londres, repetiu essas experiências e reconheceu-lhes rigorosa exatidão!
     De 1850 a 1860, só se falava disto em toda a parte; as sociedades sábias examinavam, os clérigos discutiam, os homens de letras, os advogados, todo o mundo, em uma palavra, agitava-se e… injuriava-se. Foi a coisa a tal ponto que o Conselho Legislativo do Alabama, para lançar um pouco d’água fria sobre a efervescência epidêmica que se apoderara dos cérebros norte-americanos, votou uma resolução (bill) decretando que toda pessoa disposta a entregar-se às manifestações espiritualistas seria condenada a pagar uma multa de 500 dólares. Não lembra isto o famoso
                            De part le Roy defense à Dieu – De faire miracle em ce lieu!  dos convulsionários de Saint-Medard?
     Pena foi que o governador tivesse recusado sancionar a lei adotada pela legislatura do Alabama; este marco falta-nos para indicar a grande excitação que assinalou a história do moderno Espiritualismo, em 1860. Enfim, já é bonito ver-se uma assembléia eleita, composta de homens graves, ditando uma medida calcada em um draconismo tão cômico.
     Se quiséssemos acompanhar o Espiritismo, desde 1860 até a hora atual, entraríamos em seguida na exposição das pesquisas que foram feitas sobre esta matéria por diferentes sábios, mas prometemos demonstrar que o Espiritismo é velho como o mundo; devemos, pois, retrogradando, fazer a nossa demonstração; isto nos levará provavelmente a provar ligeiramente que o mundo é muito mais velho do que geralmente se pensa.
(Obra:O Espiritismo editada em 1886- autor: Dr. Paul Gibier). 

essência divina