Espiritismo é Trabalho Solidariedade Tolerância é Sol – Allan Kardec

Espiritismo é Trabalho Solidariedade Tolerância é Sol

Espiritismo é Trabalho.
Solidariedade e tolerância.
Espiritismo é Sol.

Revista Espírita

Jornal de Estudos Psicológicos
ANO XII MAIO DE 1869 No 5
AOS ASSINANTES DA REVISTA

Biografia do Sr. Allan Kardec

É ainda sob o golpe da dor profunda que nos causou a
prematura partida do venerável fundador da Doutrina Espírita, que
nos abalançamos a uma tarefa, simples e fácil para suas mãos sábias
e experientes, mas cujo peso e gravidade nos esmagariam, se não
contássemos com o auxílio eficaz dos Espíritos bons e com a
indulgência dos nossos leitores.
Quem, dentre nós, poderia, sem ser tachado de
presunçoso, lisonjear-se de possuir o espírito de método e
organização de que se mostram iluminados todos os trabalhos do
mestre? Só a sua pujante inteligência podia concentrar tantos
materiais diversos, triturá-los e transformá-los, para os espalhar em
seguida, como orvalho benfazejo, sobre as almas desejosas de
conhecer e de amar.
Incisivo, conciso, profundo, sabia agradar e fazer
compreendido numa linguagem simples e elevada, ao mesmo tempo, tão distanciada do estilo familiar quanto das obscuridades
da metafísica.
Multiplicando-se incessantemente, pudera até agora
bastar a tudo. Entretanto, o cotidiano alargamento de suas relações
e o contínuo desenvolvimento do Espiritismo lhe faziam sentir a
necessidade de reunir em torno de si alguns auxiliares inteligentes
e preparava simultaneamente a nova organização da Doutrina e de
seus labores, quando nos deixou, para ir, num mundo melhor,
receber a sanção da missão que desempenhara e coletar elementos
para uma nova obra de devotamento e sacrifício.
Era sozinho!… Chamar-nos-emos legião e, por muito
fracos e inexperientes que sejamos, nutrimos a convicção íntima de
que nos conservaremos à altura da situação, se, partindo dos
princípios estabelecidos e de incontestável evidência, nos
consagrarmos a executar, tanto quanto nos seja possível e de
acordo com as necessidades do momento, os projetos que ele
pretendia realizar no futuro.
Enquanto nos mantivermos nas suas pegadas e todos
os de boa vontade se unirem, num esforço comum pelo progresso
e pela regeneração intelectual e moral da Humanidade, conosco
estará o Espírito do grande filósofo a nos secundar com a sua
influência poderosa, dado lhe seja possível suprir à nossa
insuficiência e nos possamos mostrar dignos do seu concurso,
dedicando-nos à obra com a mesma abnegação e a mesma
sinceridade que ele, embora sem tanta ciência e inteligência.
 
Em sua bandeira, inscrevera o mestre estas palavras:
Trabalho, solidariedade, tolerância. Sejamos, como ele, infatigáveis;
sejamos acordemente com os seus anseios, tolerantes e solidários e
não temamos seguir-lhe o exemplo, reconsiderando, quantas vezes
forem precisas, os princípios ainda controvertidos. Apelemos ao
concurso e às luzes de todos. Tentemos avançar, antes com segurança e certeza, do que com rapidez, e não ficarão infrutíferos
os nossos esforços se, como estamos persuadidos, e seremos os
primeiros a dar disso exemplo, cada um cuidar de cumprir o seu
dever, pondo de lado todas as questões pessoais, a fim de contribuir
para o bem geral.
Sob auspícios mais favoráveis não poderíamos entrar
na nova fase que se abre para o Espiritismo, do que dando a
conhecer aos nossos leitores, num rápido escorço, o que foi,
durante toda a sua vida, o homem íntegro e honrado, o sábio
inteligente e fecundo, cuja memória se transmitirá aos séculos
vindouros com a auréola dos benfeitores da Humanidade.
Nascido em Lyon, a 3 de outubro de 1804, de uma
família antiga que se distinguiu na magistratura e na advocacia,
Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail) não seguiu essas
carreiras. Desde a primeira juventude, sentiu-se inclinado ao estudo
das ciências e da filosofia.
Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun (Suíça),
tornou-se um dos mais eminentes discípulos desse célebre
professor e um dos zelosos propagandistas do seu sistema de
educação, que tão grande influência exerceu sobre a reforma do
ensino na França e na Alemanha.
Dotado de notável inteligência e atraído para o ensino,
pelo seu caráter e pelas suas aptidões especiais, já aos quatorze anos
ensinava o que sabia àqueles dos seus condiscípulos que haviam
aprendido menos do que ele. Foi nessa escola que lhe
desabrocharam as idéias que mais tarde o colocariam na classe dos
homens progressistas e livres-pensadores.
Nascido sob a religião católica, mas educado num país
protestante, os atos de intolerância que por isso teve de suportar,
no tocante a essa circunstância, cedo o levaram a conceber a ideia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante
longos anos com o intuito de alcançar a unificação das crenças.
Faltava-lhe, porém, o elemento indispensável à solução desse
grande problema.
O Espiritismo veio, a seu tempo, imprimir-lhe especial
direção aos trabalhos.
Concluídos seus estudos, voltou para a França.
Conhecendo a fundo a língua alemã, traduziu para a Alemanha
diferentes obras de educação e de moral e, o que é muito
característico, as obras de Fénelon, que o tinham seduzido de
modo particular.
 

Era membro de várias sociedades sábias, entre outras,
da Academia Real de Arras, que, em o concurso de 1831, lhe
premiou uma notável memória sobre a seguinte questão: Qual o
sistema de estudos mais de harmonia com as necessidades da época?
De 1835 a 1840, fundou, em sua casa, à rua de Sèvres,
cursos gratuitos de Química, Física, Anatomia comparada,
Astronomia, etc., empresa digna de encômios em todos os tempos,
mas, sobretudo, numa época em que só um número muito reduzido
de inteligências ousava enveredar por esse caminho.
Preocupado sempre em tornar atraentes e interessantes
os sistemas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método
engenhoso de ensinar a contar e um quadro mnemônico da história
de França, tendo por objetivo fixar na memória as datas dos
acontecimentos de maior relevo e as descobertas que celebrizaram
cada reinado.
Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos
as seguintes: Plano proposto para melhoramento da Instrução pública
(1828); Curso prático e teórico de Aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso dos professores e das mães de família (1824)15
;
Gramática francesa clássica (1831); Manual dos Exames para os títulos de capacidade; Soluções racionais das questões e problemas de Aritmética e de Geometria (1846); Catecismo gramatical da língua francesa (1848);
Programa dos cursos usuais de Química, Física, Astronomia, Fisiologia,
que professava no Liceu Polimático; Ditados normais dos exames da
Municipalidade e da Sorbona, seguidos de Ditados especiais sobre as
dificuldades ortográficas (1849), obra muito apreciada na época do
seu aparecimento e da qual ainda recentemente eram tiradas novas
edições.
Antes que o Espiritismo lhe popularizasse o
pseudônimo Allan Kardec, já ele se ilustrara, como se vê, por meio
de trabalhos de natureza muito diferente, porém tendo todos,
como objetivo, esclarecer as massas e prendê-las melhor às
respectivas famílias e países.
“Pelo ano de 185516, posta em foco a questão das
manifestações dos Espíritos, Allan Kardec se entregou a
observações perseverantes sobre esse fenômeno, cogitando
principalmente de lhe deduzir as consequências filosóficas.
Entreviu, desde logo, o princípio de novas leis naturais: as que
regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível.
Reconheceu, na ação deste último, uma das forças da Natureza,
cujo conhecimento haveria de lançar luz sobre uma imensidade de
problemas tidos por insolúveis, e lhe compreendeu o alcance, do
ponto de vista religioso.

“Suas obras principais sobre esta matéria são:

O Livro dos Espíritos, referente à parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu a 18 de abril de 1857;
O Livro dos Médiuns, relativo à parte experimental e científica (janeiro de 1861);
O Evangelho segundo o Espiritismo, concernente à parte moral (abril de 1864);
O Céu e o Inferno, ou a Justiça de Deus segundo o Espiritismo (agosto de 1865);
A Gênese, os milagres e as predições (janeiro de 1868);
A Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos, periódico mensal começado a 1o de janeiro de 1858. Fundou em Paris, a 1o de abril de 1858, a primeira Sociedade espírita regularmente constituída, sob a
denominação de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cujo fim
exclusivo era o estudo de quanto possa contribuir para o
progresso da nova ciência.
Allan Kardec se defendeu, com inteiro fundamento, de coisa alguma haver escrito debaixo da influência de idéias preconcebidas ou sistemáticas. Homem de caráter frio e calmo, observou os fatos e de suas observações deduziu as leis que os regem. Foi o primeiro a apresentar a teoria relativa a tais fatos e a formar com eles um corpo de doutrina, metódico e regular.
“Demonstrando que os fatos erroneamente qualificados de sobrenaturais se acham submetidos a leis, ele os incluiu na ordem dos fenômenos da Natureza, destruindo assim o último refúgio do maravilhoso e um dos elementos da superstição.
“Durante os primeiros anos em que se tratou de
fenômenos espíritas, estes constituíram antes objeto de
curiosidade, do que de meditações sérias. O Livro dos Espíritos fez
que o assunto fosse considerado sob aspecto muito diverso.
Abandonaram-se as mesas girantes, que tinham sido apenas um
prelúdio, e começou-se a atentar na doutrina, que abrange todas as
questões de interesse para a Humanidade.
“Data do aparecimento de O Livro dos Espíritos a
fundação do Espiritismo que, até então, só contara com elementos
esparsos, sem coordenação, e cujo alcance nem toda gente pudera
apreender. A partir daquele momento, a doutrina prendeu a
atenção dos homens sérios e tomou rápido desenvolvimento. Em poucos anos, aquelas idéias conquistaram numerosos aderentes em
todas as camadas sociais e em todos os países. Esse êxito sem
precedentes decorreu sem dúvida da simpatia que tais ideias
despertaram, mas também é devido, em grande parte, à clareza com
que foram expostas e que é um dos característicos dos escritos de
Allan Kardec.
“Evitando as fórmulas abstratas da Metafísica, ele
soube fazer que todos o lessem sem fadiga, condição essencial à
vulgarização de uma ideia. Sobre todos os pontos controversos, sua
argumentação, de cerrada lógica, poucas ensanchas oferece à
refutação e predispõe à convicção. As provas materiais que o
Espiritismo apresenta da existência da alma e da vida futura tendem
a destruir as idéias materialistas e panteístas.
Um dos princípios mais fecundos dessa doutrina e que deriva do precedente é o da pluralidade das existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros. Conservara-se, todavia, em estado de hipótese e de sistema, enquanto o Espiritismo lhe demonstra a realidade e prova que nesse princípio reside um dos
atributos essenciais da Humanidade. Dele promana a explicação de
todas as aparentes anomalias da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais, facultando ao homem
saber donde vem, para onde vai, para que fim se acha na Terra e
por que aí sofre.
“As ideias inatas se explicam pelos conhecimentos
adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e a da
Humanidade, pela ação dos homens dos tempos idos e que
revivem, depois de terem progredido; as simpatias e antipatias, pela
natureza das relações anteriores. Essas relações, que religam a
grande família humana de todas as épocas, dão por base, aos
grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de
solidariedade universal, as próprias leis da Natureza e não mais uma
simples teoria.
“Em vez do postulado: Fora da Igreja não há salvação, que
alimenta a separação e a animosidade entre as diferentes seitas
religiosas e que há feito correr tanto sangue, o Espiritismo tem
como divisa: Fora da Caridade não há salvação, isto é, a igualdade entre
os homens perante Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e
a benevolência mútua.
“Em vez da fé cega, que anula a liberdade de pensar, ele
diz: Fé inabalável só o é a que pode encarar face a face a razão, em todas as épocas da Humanidade. À fé, uma base se faz necessária e essa base é a inteligência perfeita daquilo em que se tem de crer. Para crer, não basta ver, é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é para este século.

É precisamente ao dogma da fé cega que se deve o ser hoje tão grande o
número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abolição de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio.”
(O Evangelho segundo o Espiritismo.)
Trabalhador infatigável, sempre o primeiro a tomar da
obra e o último a deixá-la, Allan Kardec sucumbiu, a 31 de março
de 1869, quando se preparava para uma mudança de local, imposta
pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações. Diversas
obras que ele estava quase a terminar, ou que aguardavam
oportunidade para vir a lume, demonstrarão um dia, ainda mais, a
extensão e o poder das suas concepções.
Morreu conforme viveu: trabalhando. Sofria, desde
longos anos, de uma enfermidade do coração, que só podia ser
combatida por meio do repouso intelectual e pequena atividade
material. Consagrado, porém, todo inteiro à sua obra, recusava-se a
tudo o que pudesse absorver um só que fosse de seus instantes, à
custa das suas ocupações prediletas. Deu-se com ele o que se dá
com todas as almas de forte têmpera: a lâmina gastou a bainha.
O corpo se lhe entorpecia e se recusava aos serviços
que o Espírito lhe reclamava, enquanto este último, cada vez mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, ia sempre alargando o círculo de
sua atividade.
Nessa luta desigual não podia a matéria resistir eternamente. Acabou sendo vencida: rompeu-se o aneurisma e Allan Kardec caiu fulminado. Um homem houve de menos na Terra; mas, um grande nome tomava lugar entre os que ilustraram este século; um grande Espírito fora retemperar-se no Infinito, onde de todos os que ele consolara e esclarecera lhe aguardavam impacientes a volta!
“A morte, dizia, faz pouco tempo, redobra os seus golpes nas fileiras ilustres!… A quem virá ela agora libertar?”
Ele foi, como tantos outros, recobrar-se no Espaço,
procurar elementos novos para restaurar o seu organismo gasto por
uma vida de incessantes labores. Partiu com os que serão os fanais
da nova geração, para voltar em breve com eles a continuar e acabar
a obra deixada em dedicadas mãos.
O homem já aqui não está; a alma, porém, permanecerá
entre nós. Será um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador
incansável que as falanges do Espaço conquistaram. Como na
Terra, sem ferir a quem quer que seja, ele fará que cada um lhe ouça
os conselhos oportunos; abrandará o zelo prematuro dos ardorosos, amparará os sinceros e os desinteressados e estimulará os tíbios. Vê agora e sabe tudo o que ainda há pouco previa! Já não está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos e nos fará partilhar da sua convicção, fazendo-nos tocar com o dedo a meta, apontando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que o tornou aureolado nos anais literários.
Já não existe o homem, repetimo-lo. Entretanto, Allan Kardec é imortal e a sua memória, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com os que empunharem forte e vigorosamente o estandarte que ele soube sempre fazer respeitado.
Uma individualidade pujante constituiu a obra. Era o guia e o farol de todos. Na Terra, a obra substituirá o obreiro. Os crentes não se congregarão em torno de Allan Kardec; congregar-se-ão em torno do Espiritismo, tal como ele o estruturou e, com os seus conselhos, sua influência, avançaremos, a passos firmes, para as fases ditosas prometidas à Humanidade regenerada.

Discursos Pronunciados
Junto ao Túmulo

EM NOME DA SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS
Pelo Vice-Presidente, Sr. Levent
Senhores,
Em nome da Sociedade Espírita de Paris, da qual tenho
a honra de ser Vice-Presidente, venho exprimir seu pesar pela
perda cruel que acaba de sofrer, na pessoa de seu venerado mestre,
Sr. Allan Kardec, morto subitamente anteontem, quarta-feira, nos
escritórios da Revista.
A vós, senhores, que todas as sextas-feiras vos reuníeis na seda da Sociedade, não preciso lembrar essa fisionomia ao mesmo tempo benevolente e austera, esse tato perfeito, essa justeza de apreciação, essa lógica superior e incomparável que nos parecia inspirada.
A vós, que todos os dias da semana partilháveis dos trabalhos do mestre, não retraçarei seus labores contínuos, sua correspondência com as quatro partes do mundo, que lhe enviavam documentos sérios, logo classificados em sua memória e preciosamente recolhidos para serem submetidos ao cadinho de sua alta razão, e formar, depois de um trabalho escrupuloso de elaboração, os elementos dessas obras preciosas que todos conheceis.
Ah! se, como a nós, vos fosse dado ver esta massa de materiais acumulados no gabinete de trabalho desse infatigável pensador; se, conosco, tivésseis penetrado no santuário de suas meditações, veríeis esses manuscritos, uns quase terminados, outros em curso de execução, outros, enfim, apenas esboçados, espalhados aqui e ali, e que parecem dizer: Onde está, pois, o nosso mestre, tão madrugador no trabalho?
Ah! mais do que nunca, também exclamaríeis, com inflexões tão pesarosas de amargura que seriam quase ímpias:
Precisaria Deus ter chamado o homem, que ainda podia fazer tanto
bem? a inteligência tão cheia de seiva, o farol, enfim, que nos tirou
das trevas e nos fez entrever esse novo mundo, mais vasto e admirável do que o que imortalizou o gênio de Cristóvão Colombo? Ele apenas começara a fazer a descrição desse mundo, cujas leis fluídicas e espirituais já pressentíamos.
Mas, tranqüilizai-vos, senhores, por este pensamento tantas vezes demonstrado e lembrado pelo nosso presidente:
“Nada é inútil em a Natureza, tudo tem sua razão de ser, e o que
Deus faz é sempre bem-feito.”
Não nos assemelhemos a esses meninos indócis que, não compreendendo as decisões dos pais, se permitem criticá-los e
por vezes mesmo censurá-los.
Sim, senhores, disto tenho a mais profunda convicção e vo-lo exprimo abertamente: a partida do nosso caro e venerado mestre era necessária!
Aliás, não seríamos ingratos e egoístas se, não pensando senão no bem que ele nos fazia, esquecêssemos o direito que ele adquirira, de ir repousar um pouco na pátria celestial, onde tantos amigos, tantas almas de escol o esperavam e vieram recebê-lo, após uma ausência, que também para eles parecia bem longa?
Oh! sim, há alegria, há grande festa no Alto, e essa festa, essa alegria, só se iguala à tristeza e ao luto causados por sua partida entre nós, pobres exilados, cujo tempo ainda não chegou! Sim, o mestre havia realizado a sua missão! Cabe a nós continuar a sua obra, com o auxílio dos documentos que ele nos deixou, e daqueles, ainda mais preciosos, que o futuro nos reserva. A tarefa será fácil, ficai certos, se cada um de nós ousar afirmar-se corajosamente; se cada um de nós tiver compreendido que a luz que recebeu deve ser propagada e comunicada aos seus irmãos; se cada um de nós, enfim, tiver a memória do coração para o nosso lamentado presidente e souber compreender o plano de organização que levou o último selo de sua obra.
Continuaremos, pois, o teu trabalho, caro mestre, sob teu eflúvio benfazejo e inspirador. Recebe aqui a nossa promessa formal. É o melhor sinal de afeição que podemos te dar.
Em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, não te dizemos adeus, mas até logo, até breve!

O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA

Pelo Sr. C. Flammarion
Depois que o Sr. Vice-Presidente da Sociedade, junto à
tumba do mestre, proferiu a prece pelos mortos e, em nome da
Sociedade, testemunhou os sentimentos de pesar que acompanham
o Sr. Allan Kardec à sua partida desta vida, o Sr. Camille
Flammarion pronunciou o discurso que vamos reproduzir em
parte. De pé, numa elevação de onde dominava a assembléia, o Sr.
Flammarion pôde ser ouvido por todos, afirmando publicamente a
realidade dos fatos espíritas, seu interesse geral na Ciência e sua
importância futura. Esse discurso não é apenas um esboço do
caráter do Sr. Allan Kardec e do papel de seus trabalhos no
movimento contemporâneo, mas, ainda e sobretudo, uma
exposição da situação atual das ciências físicas, do ponto de vista
do mundo invisível, das forças naturais desconhecidas, da
existência da alma e de sua indestrutibilidade.
Falta-nos espaço para dar in extenso o discurso do Sr.
Flammarion. Eis o que se liga diretamente ao Sr. Allan Kardec e ao
Espiritismo, considerado em si mesmo. (O discurso inteiro será
publicado em brochura).
“Senhores,
“Aceitando com deferência o convite simpático dos
amigos do pensador laborioso cujo corpo terreno jaz agora aos
nossos pés, vem-me à mente um dia sombrio do mês de dezembro
de 1865, em que pronunciei palavras de supremo adeus junto à
tumba do fundador da Livraria Acadêmica, do honrado Didier,
que, como editor, foi colaborador convicto de Allan Kardec, na
publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe era
cara. Também ele morreu subitamente, como se o céu houvesse
querido poupar a esses dois Espíritos íntegros o embaraço
fisiológico de sair desta vida por via diferente da comumente
seguida. A mesma reflexão se aplica à morte do nosso ex-colega
Jobard, de Bruxelas.
“Hoje, maior ainda é a minha tarefa, porquanto eu
desejara figurar à mente dos que me ouvem e à dos milhões de
criaturas que na Europa inteira e no Novo Mundo se têm ocupado
com o problema ainda misterioso dos fenômenos chamados
espíritas; – eu quisera, digo, poder figurar-lhes o interesse científico
e o porvir filosófico do estudo desses fenômenos, ao qual se hão
consagrado, como ninguém ignora, homens eminentes dentre os
nossos contemporâneos. Estimaria fazer-lhes entrever os
horizontes desconhecidos que a mente humana verá rasgar-se
diante de si, à medida que ela ampliar o conhecimento positivo das
forças naturais que em torno de nós atuam; mostrar-lhes que essas
comprovações constituem o mais eficaz antídoto para a lepra do
ateísmo, de que parece atacada, principalmente, a nossa época de
transição; dar, enfim, aqui, testemunho público do eminente
serviço que o autor de O Livro dos Espíritos prestou à filosofia,
chamando a atenção e provocando discussões sobre fatos que até então
pertenciam ao domínio mórbido e funesto das superstições
religiosas.
“Seria, com efeito, um ato importante firmar aqui,
junto deste túmulo eloquente, que o metódico exame dos
fenômenos erroneamente qualificados de sobrenaturais, longe de
renovar o espírito de superstição e de enfraquecer a energia da
razão, ao contrário, afasta os erros e as ilusões da ignorância e serve
melhor ao progresso, do que as negações ilegítimas dos que não
querem dar-se ao trabalho de ver.
“Mas, este não é lugar apropriado a estabelecer uma
arena às discussões desrespeitosas. Deixemos apenas que das
nossas mentes desçam, sobre a face impassível do homem ora
estendido diante de nós, testemunhos de afeição e sentimentos de
pesar, que lhe permaneçam ao derredor em seu túmulo, qual
embalsamamento do coração! E, pois que sabemos que sua alma
eterna sobrevive a estes despojos mortais, do mesmo modo que a
eles preexistiu; pois que sabemos que laços indestrutíveis unem o
nosso mundo visível ao mundo invisível; pois que esta alma existe
hoje tão bem como há três dias e que não é impossível se ache
atualmente na minha presença. Digamos-lhe que não quisemos se
desvanecesse a sua imagem terrena encerrada no sepulcro, sem
unanimemente rendermos homenagem a seus trabalhos e à sua
memória, sem pagar um tributo de reconhecimento à sua
encarnação terrena, tão útil e tão dignamente preenchida.
“Traçarei, primeiro, num esboço rápido, as linhas
principais da sua carreira literária.
“Morto na idade de 65 anos, Allan Kardec consagrara a
primeira parte de sua vida a escrever obras clássicas, elementares,
destinadas, sobretudo, ao uso dos educadores da mocidade.
Quando, pelo ano de 1850, as manifestações, novas na aparência,
das mesas girantes, das pancadas sem causa ostensiva, dos
movimentos insólitos de objetos e móveis começaram a prender a
atenção pública, determinando mesmo, nos de imaginação
aventureira, uma espécie de febre, devida à novidade de tais
experiências, Allan Kardec, estudando ao mesmo tempo o
magnetismo e seus singulares efeitos, acompanhou com a maior
paciência e clarividência judiciosa as experimentações e as
tentativas numerosas que então se faziam em Paris.
“Recolheu e pôs em ordem os resultados conseguidos
dessa longa observação e com eles compôs o corpo de doutrina
que publicou em 1857, na primeira edição de O Livro dos Espíritos.
Todos sabeis que êxito alcançou essa obra, na França e no
estrangeiro. Havendo atingido a 16a edição, tem espalhado em
todas as classes esse corpo de doutrina elementar que, na sua
essência, não é absolutamente novo, porquanto a escola de
Pitágoras, na Grécia, e a dos druidas, em nossa própria Gália,
ensinavam os seus princípios fundamentais, mas que agora reveste
uma forma de verdadeira atualidade, por corresponder aos
fenômenos.

“Depois dessa primeira obra apareceram,
sucessivamente, O Livro dos Médiuns, ou Espiritismo experimental; – O
que é o Espiritismo, ou resumo sob a forma de perguntas e respostas;
– O Evangelho segundo o Espiritismo; – O Céu e o Inferno; – A Gênese. A
morte o surpreendeu no momento em que, com a sua infatigável
atividade, trabalhava noutra sobre as relações entre o Magnetismo
e o Espiritismo.
“Traçarei, primeiro, num esboço rápido, as linhas
principais da sua carreira literária.
“Morto na idade de 65 anos, Allan Kardec consagrara a
primeira parte de sua vida a escrever obras clássicas, elementares,
destinadas, sobretudo, ao uso dos educadores da mocidade.
Quando, pelo ano de 1850, as manifestações, novas na aparência,
das mesas girantes, das pancadas sem causa ostensiva, dos
movimentos insólitos de objetos e móveis começaram a prender a
atenção pública, determinando mesmo, nos de imaginação
aventureira, uma espécie de febre, devida à novidade de tais
experiências, Allan Kardec, estudando ao mesmo tempo o
magnetismo e seus singulares efeitos, acompanhou com a maior
paciência e clarividência judiciosa as experimentações e as
tentativas numerosas que então se faziam em Paris.
“Recolheu e pôs em ordem os resultados conseguidos
dessa longa observação e com eles compôs o corpo de doutrina
que publicou em 1857, na primeira edição de O Livro dos Espíritos.
Todos sabeis que êxito alcançou essa obra, na França e no
estrangeiro. Havendo atingido a 16a edição, tem espalhado em
todas as classes esse corpo de doutrina elementar que, na sua
essência, não é absolutamente novo, porquanto a escola de
Pitágoras, na Grécia, e a dos druidas, em nossa própria Gália,
ensinavam os seus princípios fundamentais, mas que agora reveste
uma forma de verdadeira atualidade, por corresponder aos
fenômenos.

“Depois dessa primeira obra apareceram, sucessivamente, O Livro dos Médiuns, ou Espiritismo experimental; – O que é o Espiritismo, ou resumo sob a forma de perguntas e respostas;
– O Evangelho segundo o Espiritismo; – O Céu e o Inferno; – A Gênese. A
morte o surpreendeu no momento em que, com a sua infatigável
atividade, trabalhava noutra sobre as relações entre o Magnetismo
e o Espiritismo.
partida era aplicar-lhes a razão firme do simples bom-senso e
examiná-las segundo os princípios do método positivo.
“Conforme o próprio organizador deste estudo
demorado e difícil previra, esta doutrina, até então filosófica, tem
que entrar agora num período científico. Os fenômenos físicos,
sobre os quais a princípio não se insistia, hão de tornar-se objeto da
crítica experimental, sem a qual nenhuma constatação séria é
possível. Esse método experimental, a que devemos a glória dos
progressos modernos e as maravilhas da eletricidade e do vapor,
deve colher os fenômenos de ordem ainda misteriosa a que
assistimos para os dissecar, medir e definir.

“Porque, meus Senhores, o Espiritismo não é uma
religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o abecê.
Passou o tempo dos dogmas. A Natureza abrange o Universo, e o
próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, a moderna
Metafísica não o pode considerar senão como um espírito na
Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas com
o auxílio dos médiuns, como as do magnetismo e do
sonambulismo, são de ordem natural e devem ser severamente
submetidas à verificação da experiência.
Não há mais milagres.
Assistimos ao alvorecer de uma ciência desconhecida. Quem
poderá prever a que consequências conduzirá, no mundo do
pensamento, o estudo positivo desta nova psicologia?
“Doravante, o mundo é regido pela ciência e, Senhores,
não virá fora de propósito, neste discurso fúnebre, assinalar-lhe a
obra atual e as induções novas que ela nos patenteia, precisamente
do ponto de vista das nossas pesquisas.”
Aqui o Sr. Flammarion entra na parte científica de seu
discurso. Expõe o estado atual da Astronomia e da Física,
desenvolvendo particularmente as descobertas relativas à análise
recente do espectro solar. Resulta dessas descobertas que não vemos
quase nada do que se passa à nossa volta na Natureza.
Os raios caloríficos, que evaporam a água, formam as nuvens, causam os ventos, as correntes, organizam a vida do globo, são invisíveis para a
nossa retina. Os raios químicos que regem os movimentos das
plantas e as transformações químicas do mundo inorgânico são
igualmente invisíveis. A ciência contemporânea autoriza, pois, os
pontos de vista revelados pelo Espiritismo e, por sua vez, nos abre
um mundo invisível real, cujo conhecimento só pode esclarecer-nos quanto ao modo de produção dos fenômenos espíritas.
Em seguida o jovem astrônomo apresentou o quadro
das metamorfoses, do qual resulta que a existência e a imortalidade
da alma se revelam pelas mesmas leis da vida. Não podemos aqui
entrar nessa exposição, mas aconselhamos vivamente os nossos
irmãos em doutrina a lerem e estudarem na íntegra o discurso do
Sr. Flammarion.
Após sua exposição científica, assim termina o autor:
“Que os que têm a vista restringida pelo orgulho ou
pelo preconceito não compreendam absolutamente os anseios de
nossas mentes ávidas de conhecer e lancem sobre este gênero de
estudos seus sarcasmos ou anátemas! Colocamos mais alto as
nossas contemplações!… Foste o primeiro, oh! mestre e amigo!
foste o primeiro a dar, desde o princípio da minha carreira
astronômica, testemunho de viva simpatia às minhas deduções
relativas à existência das humanidades celestes, pois, tomando do
livro sobre a Pluralidade dos mundos habitados, o puseste
imediatamente na base do edifício doutrinário com que sonhavas.

Muito amiúde conversávamos sobre essa vida celeste tão
misteriosa; agora, oh! alma, sabes, por visão direta, em que consiste a vida espiritual a que voltaremos e que esquecemos durante a
existência na Terra.
“Voltaste a esse mundo donde viemos e colhes o fruto
de teus estudos terrestres. Aos nossos pés dorme o teu envoltório,
extinguiu-se o teu cérebro, fecharam-se-te os olhos para não mais
se abrirem, não mais ouvida será a tua palavra…
Sabemos que todos havemos de mergulhar nesse mesmo último sono, de volver a essa mesma inércia, a esse mesmo pó. Mas não é nesse envoltório que pomos a nossa glória e a nossa esperança. Tomba o corpo, a alma permanece e retorna ao Espaço. Encontrar-nos-emos num mundo melhor e no céu imenso onde usaremos das nossas mais
preciosas faculdades, onde continuaremos os estudos para cujo
desenvolvimento a Terra é teatro por demais acanhado.
“É-nos mais grato saber esta verdade, do que acreditar
que jazes todo inteiro nesse cadáver e que tua alma se haja
aniquilado com a cessação do funcionamento de um órgão. A
imortalidade é a luz da vida, como este refulgente Sol é a luz da
Natureza.
“Até à vista, meu caro Allan Kardec, até à vista!”

EM NOME DOS ESPÍRITAS DOS CENTROS DISTANTES

Pelo Sr. Alexandre Delanne
Mui caro Mestre,
Tantas vezes tive ocasião, nas minhas numerosas
viagens, de ser junto a vós o intérprete dos sentimentos fraternos e
reconhecidos de nossos irmãos da França e do estrangeiro, que
julgaria faltar a um dever sagrado se, em nome deles, eu não viesse
neste momento vos testemunhar o seu pesar.
Eu não serei, ai! senão um eco bem fraco para vos
descrever a felicidade daquelas almas tocadas pela fé espírita, que se abrigaram sob a bandeira de consolação e de esperança que tão
corajosamente implantastes entre nós.
Muitos dentre eles certamente desempenhariam,
melhor que eu, essa tarefa do coração.
Como a distância e o tempo não lhes permitem estar
aqui, ouso fazê-lo, conhecedor que sou da vossa benevolência
habitual a meu respeito e a de nossos bons irmãos que represento.
Recebei, pois, caro mestre, em nome de todos, a
expressão dos pesares sinceros e profundos que a vossa partida
precipitada da Terra vai fazer nascer por todos os lados.
Conheceis, melhor que ninguém, a natureza humana;
sabeis que ela precisa de amparo. Ide, pois, até eles, derramar ainda
esperança em seus corações.
Provai-lhes, por vossos sábios conselhos e vossa lógica
poderosa, que não os abandonais e que a obra a que vos dedicastes
tão generosamente não perecerá, e nem poderia perecer, porque está
assentada nas bases inabaláveis da fé raciocinada.
Pioneiro emérito, soubestes coordenar a pura Filosofia
dos Espíritos e pô-la ao alcance de todas as inteligências, desde as
mais humildes, que elevastes, até as mais eruditas, que vieram até
vós e que hoje se contam modestamente em nossas fileiras.
Obrigado, nobre coração, pelo zelo e pela perseverança
que pusestes em nos instruir.
Obrigado por vossas vigílias e vossos labores, pela fé
vigorosa que em nós inculcastes.
Obrigado pela felicidade presente que desfrutamos, e
pela felicidade futura, cuja certeza nos destes, quando nós, como
vós, tivermos entrado na grande pátria dos Espíritos.
Obrigado ainda pelas lágrimas que enxugastes, pelos
desesperos que acalmastes e pela esperança que fizestes brotar nas
almas abatidas e desalentadas.
Obrigado! mil vezes obrigado, em nome de todos os nossos confrades da França e do estrangeiro! Até breve.
 

EM NOME DA FAMÍLIA E DOS AMIGOS

Pelo Sr. E. Muller
Caros aflitos,
Falo por último junto a esta fossa aberta, que contém
os despojos mortais daquele que, entre nós se chamava Allan
Kardec.
Falo em nome de sua viúva, daquela que foi sua
companheira fiel e ditosa, durante trinta e sete anos de uma
felicidade sem nuvens e sem mesclas, daquela que compartilhou de
suas crenças e de seus trabalhos, bem como de suas vicissitudes e
alegrias; que, hoje só, se orgulha da pureza dos costumes, da
honestidade absoluta e do sublime desinteresse de seu esposo. É ela
que nos dá a todos o exemplo de coragem, de tolerância, de perdão
das injúrias e do dever cumprido escrupulosamente.
Falo também em nome de todos os amigos, presentes
ou ausentes, que seguiram passo a passo a carreira laboriosa que
Allan Kardec sempre percorreu honradamente; daqueles que
querem honrar sua memória, lembrando alguns traços de sua vida.
Primeiramente quero dizer-vos por que seu envoltório
mortal foi para aqui conduzido diretamente, sem pompa e sem
outras preces senão as vossas! Precisaria de preces aquele cuja vida
inteira não foi senão um longo ato de piedade, de amor a Deus e à
Humanidade? Não bastaria que todos pudessem unir-se a nós nesta
ação comum, que afirma a nossa estima e a nossa afeição?
A tolerância absoluta era a regra de Allan Kardec. Seus
amigos, seus discípulos pertenciam a todas as religiões: israelitas,
maometanos, católicos e protestantes de todas as seitas; de todas as
classes: ricos, pobres, sábios, livres-pensadores, artistas e operários,
etc… Todos puderam vir aqui, graças a esta medida que não
compromete nenhuma consciência e que será um bom exemplo.
Mas, ao lado desta tolerância que nos reúne, devo citar
uma intolerância, que admiro? Fá-lo-ei, porque, aos olhos de todos,
ela deve legitimar esse título de mestre, que muitos dentre nós lhe
atribuímos. Essa intolerância é um dos caracteres mais salientes de
sua nobre existência. Ele tinha horror à preguiça e à ociosidade; e
este grande trabalhador morreu de pé, após um labor imenso, que
acabou ultrapassando as forças de seus órgãos, mas não as do seu
espírito e do seu coração.
Educado na Suíça, naquela escola patriótica em que se
respira um ar livre e vivificante, ocupava seus lazeres, desde a idade
de quatorze anos, a dar aulas aos seus camaradas que sabiam menos
que ele.
Vindo para Paris, e sabendo falar alemão tão bem
quanto francês, traduziu para a Alemanha os livros da França que
mais lhe tocavam o coração. Escolheu Fénelon para o tornar
conhecido, e essa escolha denota a natureza benévola e elevada do
tradutor. Depois, entregou-se à educação. Sua vocação era instruir.
Seus sucessos foram grandes e as obras que publicou, gramática,
aritmética e outras, tornaram popular o seu verdadeiro nome, o de
Rivail.

Não satisfeito em utilizar suas notáveis faculdades
numa profissão que lhe assegurava uma tranqüila comodidade, quis
que aproveitassem os seus conhecimentos aqueles que não podiam
pagar, e foi um dos primeiros a organizar, nesta época de sua vida,
cursos gratuitos, ministrados na rua de Sèvres, no 35, nos quais
ensinava Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia, etc.
É que havia tocado em todas as ciências e, tendo-as
bem aprofundado, sabia transmitir aos outros o que ele mesmo
conhecia, talento raro e sempre apreciado.
Para este sábio dedicado, o trabalho parecia o elemento
mesmo da vida. Por isso, mais que ninguém, não podia suportar a
idéia da morte tal qual então a apresentavam, tendo como resultado
um eterno sofrimento ou uma felicidade egoísta e eterna, mas sem
utilidade, nem para os outros nem para si mesmo.
Era como predestinado, bem o vedes, para espalhar e
vulgarizar esta admirável filosofia que nos faz esperar o trabalho no
além-túmulo e o progresso indefinido de nossa individualidade, que
se conserva melhorando-se.
Soube tirar dos fatos, considerados ridículos e vulgares,
admiráveis conseqüências filosóficas e toda uma doutrina de
esperança, de trabalho e de solidariedade, semelhante ao verso de
um poeta que ele amava:
Transformar o chumbo vil em ouro puro.
Sob o esforço de seu pensamento tudo se transformava
e engrandecia, aos raios de seu coração ardente; sob sua pena tudo
se precisava e se cristalizava, a bem dizer, em frases de
deslumbrante clareza.
Tomava para seus livros esta admirável epígrafe: Fora da
caridade não há salvação, cuja aparente intolerância ressalta a
tolerância absoluta.

Transformava as velhas fórmulas e, sem negar a feliz
influência da fé, da esperança e da caridade, arvorava uma nova
bandeira, ante a qual todos os pensadores podem e devem inclinarse, porque esse estandarte do futuro leva escritas estas três palavras:
Razão, Trabalho e Solidariedade.
É em nome desta mesma razão que ele colocou tão alto,
em nome de sua viúva, em nome de seus amigos que eu vos digo a
todos que não mais olheis esta fossa aberta. É para mais alto que
devemos erguer os olhos, para encontrar aquele que acaba de nos
deixar! Para conter esse coração tão devotado e tão bom, essa
inteligência de escol, esse espírito tão fecundo, essa individualidade
tão poderosa, bem o vedes vós mesmos, medindo-a com os olhos,
esta fossa seria demasiado pequena, e nenhuma seria bastante
grande.
Coragem, pois! e saibamos honrar o filósofo e o amigo,
praticando suas máximas e trabalhando, cada um no limite de suas
forças, para propagar aquelas que nos encantaram e convenceram.

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